TOCANTINS NOSSA TERRA: Tia Tê, mulher detentora da fé que atravessa gerações e mantém viva a tradição na Fazenda Altamira

por Jornal Folha do Jalapao — 22/01/2026 às 12:52 — em Cidades, Destaques

Hoje é dia de reverenciar uma história que atravessa gerações. Na Fazenda Altamira, a família Rodrigues mantém viva, há 56 anos, uma caminhada de fé iniciada por seus pais e sustentada até hoje pelo carinho, pela união e pela promessa feita a São Sebastião.

Por: Wenina Miranda –

Quem não conhece Tia Tê, Terezinha Rodrigues de Sousa Diógenes, com certeza conhece ao menos um capítulo de sua história. Seu nome se confunde com a fé, a tradição e a união familiar que, há décadas, marcam o festejo de São Sebastião na Fazenda Altamira, no município de Santa Tereza do Tocantins.

Filha do senhor Pedro Gomes de Sousa e de dona Paulina Rodrigues de Sousa (im memoriam), e irmã de dona Domingas Rodrigues, Tia Tê carrega consigo o legado de uma família que fez da devoção um alicerce. O festejo de São Sebastião, celebrado anualmente na fazenda, foi idealizado pelos patriarcas e, com o passar dos anos, tornou-se um dos mais importantes momentos de encontro entre familiares, amigos e devotos.

Mesmo com as perdas de dona Paulina, que faleceu em 2011, e seu Pedro em 2022, a Fazenda Altamira segue sendo cuidada com zelo. Mais do que a terra, preserva-se ali a crença, fortalecida pela fé e pelos laços familiares que se renovam a cada encontro.

Na propriedade, dois espaços guardam significado especial: a Capela e o Salão de São Sebastião, ambos mantidos cuidadosamente pela família. A capela, segundo relembra Tia Tê, já existia quando ela nasceu. Foi construída por seus pais e, por muitos anos, acolheu os devotos que se reuniam para rezar o terço em honra ao santo protetor.

O salão de eventos surgiu bem depois, em um momento delicado da história recente: durante a pandemia, quando era necessário manter distanciamento entre as pessoas. Enquanto a capela permaneceu aberta para visitação e oração individual, as novenas passaram a ser celebradas no salão, garantindo a continuidade da tradição mesmo em tempos difíceis.

Por volta de 2007, o festejo de São Sebastião ganhou proporções ainda maiores, passando a contar com a participação de padres e atraindo um número crescente de fiéis. O que antes era um encontro familiar e comunitário transformou-se em uma celebração de fé que ultrapassa gerações, sem perder sua essência.

À frente dessa história está Tia Tê, guardiã da memória, da devoção e da união que sustentam o festejo. Sua presença representa mais do que liderança: simboliza a resistência da fé, o respeito às raízes e o compromisso de manter viva uma tradição que segue iluminando caminhos na Fazenda Altamira.

Um dos momentos mais marcantes dessa história é o orgulho que Tia Tê carrega no coração. Com os olhos marejados e um sorriso sereno, ela costuma dizer que a fé de sua mãe foi tão grande que gerou frutos para toda a família. Entre tantas orações, nasceu um padre: José Ney Rodrigues, filho de dona Domingas, hoje responsável pela celebração do festejo de São Sebastião na Fazenda Altamira. Reconhecido e respeitado por toda a região do Jalapão, o sacerdote é presença querida entre os fiéis e simboliza a força de uma devoção que atravessa gerações e permanece viva no seio da família.

O terço rezado pela família permanece cuidadosamente registrado em um caderno que atravessa gerações. Cada oração ali escrita é a mesma entoada por dona Paulina ao longo de sua vida, preservada em sua forma original e respeitada como parte da história da família. Todos os membros mantêm uma cópia desse terço, que se tornou mais do que um registro: é uma relíquia de fé, marcada pelas dezenas de vezes em que foi rezada por dona Paulina e hoje mantida com devoção, como herança espiritual que fortalece a união e mantém viva a tradição.

Promessa

Tia Tê conta que a história dessa devoção nasceu em um dos momentos mais difíceis vividos por dona Paulina e seu Pedro. Era um tempo de perdas, de dor e de incertezas, quando tudo parecia faltar e o futuro se tornava pesado demais para carregar. Sem outras forças, foi na fé que encontraram amparo. De joelhos no chão, entregaram suas angústias a São Sebastião, pedindo sua intercessão para que suas vidas fossem sustentadas, sua família preservada e a dignidade não lhes fosse tirada.

O pedido era simples e profundo: que não lhes faltasse o alimento, que fossem libertos dos conflitos e que a vida pudesse ser novamente erguida. Em troca, fizeram uma promessa que atravessaria o tempo. Se alcançassem a graça pedida, todos os anos, no dia 20 de janeiro, reuniriam a família para rezar em honra a São Sebastião. Diante de Deus e do santo protetor, selaram também um compromisso maior: quando chegasse a hora de partirem, a tradição não se encerraria com eles. A devoção seria mantida pelos filhos e perpetuada por seus descendentes, como herança de fé, gratidão e fidelidade.

É essa promessa, nascida na dor e sustentada pela esperança, que até hoje mantém viva a celebração na Fazenda Altamira, transformando dificuldades em testemunho e fé em união familiar.

O retorno

Tia Tê, professora aposentada há pouco tempo, realizou um sonho antigo: retornar às suas raízes, mudando-se de Buritirana para a Fazenda Altamira, junto do esposo, Gilmar Diógenes. Naquele terreno repleto de lembranças e história, ela encontrou o espaço ideal para honrar a tradição da família e dar continuidade à fé que seus pais cultivaram com tanto cuidado.

Hoje, Tia Tê recebe pessoas de diferentes crenças, compartilhando momentos de oração, reflexão e devoção. Para ela, cumprir as promessas religiosas, como a que sua mãe fez a São Sebastião, é mais do que uma tradição: é um compromisso com a união da família e da comunidade, com a adoração a Deus e com a preservação de valores que transcendem gerações. “Aqui, não há festas dançantes nem bebidas alcoólicas; há reverência, acolhimento e a celebração da fé”, ressalva Tia Tê.

Seguindo os ensinamentos de dona Paulinha, Tia Tê transforma a Fazenda Altamira em um verdadeiro refúgio de espiritualidade e memória, um lugar onde a fé se fortalece, os laços familiares se renovam e a história da família continua viva, iluminando o presente e projetando-se para o futuro.

Acervo e memória

Na Fazenda Altamira, cada detalhe é uma lembrança viva da história da família. Logo na entrada, exposto na parede principal, está o Termo de Doação, o documento assinado pelos pais de Tia Tê e de dona Domingas, que transfere oficialmente às filhas a condução da fazenda e a responsabilidade de preservar a fé e a tradição familiar. Mais do que um papel, é um símbolo de confiança, amor e continuidade, um pacto silencioso que atravessa gerações.

Quem chega à fazenda encontra acolhimento e calor humano. O espaço recebeu pequenas mudanças ao longo dos anos, mas nenhuma delas alterou a essência do lugar nem apagou suas raízes. Um verdadeiro acervo guarda memórias dos pais: arreios, enxadas, chapéus de couro, fotografias e dezenas de outros objetos cuidadosamente preservados e expostos nas paredes pelas filhas. Cada peça conta uma história de luta, dedicação e fé, mantendo viva a presença de quem construiu aquele espaço com tanto esforço.

Para quem visita a Fazenda Altamira, o que mais impressiona é o amor e a união da família. Tia Tê e dona Domingas seguem, lado a lado, mantendo acesa a caminhada de fé e a tradição iniciada pelos pais, transformando a fazenda em muito mais do que um lar: um verdadeiro santuário de memória, devoção e união familiar.

Festejo de São Sebastião

Neste ano, o festejo de São Sebastião na Fazenda Altamira foi celebrado com alegria, fartura e a presença calorosa de muitas pessoas. A promessa feita por dona Paulina e seu esposo, fielmente cumprida pela família, segue rendendo frutos a cada ano: não apenas mais alimento à mesa, mas sobretudo mais união e amor entre todos que participam da tradição.

A missa, celebrada pelo padre José Ney, foi marcada por emoção e devoção. O salão estava repleto, lotado de moradores de municípios vizinhos que vieram prestar homenagem ao santo e compartilhar momentos de fé e comunhão. Em cada olhar, em cada gesto de carinho, era possível perceber que Deus continua mantendo viva a história da família, fortalecendo a liderança de Tia Tê e dona Domingas e lembrando que a fé, quando cultivada com amor e dedicação, transforma vidas e mantém a união que atravessa gerações.

O que torna a história de Tia Tê e dona Domingas tão especial é que ela vai além das paredes da Fazenda Altamira ou das promessas escritas no papel. É uma história de amor, fé e dedicação que atravessa gerações, unindo família, amigos e comunidade em torno de valores que permanecem vivos. Cada oração, cada missa, cada gesto de acolhimento é um lembrete de que a tradição se renova a cada dia, e que a memória dos que vieram antes de nós continua a guiar e inspirar os que seguem.

Na Fazenda Altamira, a fé não é apenas celebrada: ela é vivida, compartilhada e passada adiante, garantindo que o legado de devoção, união e esperança de dona Paulinha e seu Pedro jamais se apague.

Memória

O jornal Folha do Jalapão, em seus 25 anos de trajetória, finalmente teve a oportunidade de registrar parte da história da família Rodrigues. Graças ao convite da Secretária Municipal de Cultura de Santa Tereza do Tocantins, Diana Duarte, tivemos o privilégio de visitar a Fazenda Altamira e conhecer de perto as matriarcas que mantém viva a tradição de fé. Foi na tarde do dia 19 de janeiro de 2026 que sentimos, mais uma vez, a importância de preservar e contar as histórias do nosso povo do Jalapão.

Para nós, aquele foi um momento grandioso, que ultrapassou as páginas do jornal: ao entrar em contato com o acervo familiar, fomos transportados no tempo. Entre objetos, fotos e lembranças, surgiu a saudade do meu próprio pai, que também partiu, deixando sua história de vida não registrada em jornais, mas viva na memória e no legado que permanece.

Naquele instante, ficou evidente a força da preservação da memória e o poder das histórias familiares: a tradição, a fé e o amor registrados na Fazenda Altamira se tornaram, por alguns instantes, parte da minha própria história, mostrando que cada gesto de cuidado com o passado fortalece a identidade e os laços de toda uma comunidade.

E é com esse mesmo compromisso que seguiremos em frente, continuando a contar as histórias do nosso povo do Jalapão, preservando memórias, fé e tradição para as futuras gerações.

(Wenina Miranda )

Compartilhe no:
MAIS NOTÍCIAS

Você pode gostar

Esporte e integração marcam amistoso entre Aparecida do Rio Negro e Secretaria Estadual de Esportes

Prefeito Deusimar Amorim e o secretário estadual Atos Gomes reforçam parcerias e...

Palmas se consolida como polo administrativo e de eventos no TO

Dados dos Centros de Atendimento ao Turista e do Aeroporto de Palmas...