BARRA DE AROEIRA: Guerreiras do Quilombo mostram suas caras e suas lutas

por Wenina — 02/02/2026 às 08:34 — em Cidades, Destaques

Patrícia Maria Rodrigues, Almerinda Pereira Lima, Rita Fernandes Rodrigues e Joana Maria Rodrigues transformam a mandioca em farinha, compartilham suas histórias de vida e mantêm viva a tradição do Quilombo da Barra de Aroeira, garantindo sustento e orgulho para a comunidade.

Por: Wenina Miranda –

Antes do sol aquecer a terra de Santa Tereza do Tocantins, mãos firmes já estão em movimento na comunidade Barra de Aroeira. Entre o cheiro da mandioca e o som do trabalho que se repete todos os dias, quatro mulheres transformam esforço em sustento e tradição em resistência. Na fábrica Farinha do Quilombo, elas se encontram não apenas para produzir farinha, mas para manter viva a história de um povo que acredita em dias melhores e ama o que faz.

Unidas pela luta constante para ajudar no sustento da família, essas mulheres compartilham a mesma rotina de trabalho, mas cada uma carrega sua própria trajetória de vida. Patrícia Rodrigues, Almerinda Pereira, Rita Rodrigues e Joana Rodrigues são nomes que representam força, coragem e pertencimento.

São quatro mulheres, quatro histórias, que se cruzam todos os dias em um mesmo espaço, moldadas pelo trabalho, pela fé e pela esperança.

Na Farinha do Quilombo, o dia segue o ritmo da produção. O cheiro da mandioca se espalha pelo ambiente, misturado ao barulho das máquinas e ao calor do fogo. No forno, a massa é torrada com cuidado, enquanto mãos experientes descascam a rama que garante o alimento diário da comunidade e chega à mesa de centenas de famílias em todo o estado.

Contar a história de cada uma dessas mulheres é motivo de orgulho para nós, da Folha do Jalapão. Ao longo do tempo, acompanhamos a dedicação de um povo simples, mas de caráter admirável e força incontestável. Em um dos dias de produção, fui recebida com alegria e entusiasmo na fábrica, onde pude compreender melhor o ciclo da farinha, um trabalho que começa na preparação da terra e no plantio da rama, passa pela colheita da mandioca e segue até o transporte para a fábrica, onde o fruto é transformado em alimento pelas mãos dessas e de dezenas de outras mulheres.

A líder que mantém a Farinha do Quilombo em movimento


Entre o cheiro forte da mandioca e o barulho das máquinas da Farinha do Quilombo, Patrícia Maria Rodrigues observa cada detalhe. Mãos experientes descascam a rama enquanto o fogo torra a massa, e cada gesto é feito com cuidado. É ela quem coordena, incentiva e mantém o ritmo do trabalho, sempre com o olhar atento ao processo e ao bem-estar das famílias envolvidas.

O projeto, hoje formado por cinco núcleos de produção, nasceu há alguns anos com Patrícia e seu grupo, mas, aos poucos, outros agricultores da comunidade se juntaram, fazendo a produção crescer e gerando renda para a Associação Quilombola da Barra. Ao lado dela, o esposo Orlando Soares, coordena o trabalho, garantindo que a troca de serviços entre produtores fortaleça toda a comunidade.

A história de Patrícia começou ainda debaixo de um pé de Barú, com uma produção tímida, mas já diferenciada. As primeiras vendas aconteceram nas feiras de Palmas, com apenas duas quartas de farinha vendidas, um começo modesto, mas que motivou a família a seguir em frente. Para expandir a produção, a líder buscou apoio da prefeitura, que se tornou uma das maiores parceiras do projeto, emprestando maquinário e permitindo que o sonho se concretizasse.

Hoje, a fábrica produz até 12 sacos de farinha por dia, dependendo da mandioca disponível. O trabalho é intenso, muitas vezes se estendendo noite adentro“, conta a lider. Para Patrícia, ver a farinha chegar às mesas da comunidade e a escolas de Palmas e de ensino da própria comunidade é a maior recompensa: a realização de um sonho construído com esforço, dedicação e amor pelo que fazem.

Patrícia destaca sua gratidão à Prefeitura de Santa Tereza, que através da Secretraia Municipal da Agricultura, tem sido uma parceira essencial, disponibilizando maquinário para gradear a terra, transportar a mandioca e apoiar a inserção das produtoras em eventos na capital. Ela ressalta também a participação da Secretaria Municipal da Cultura nesses eventos, fortalecendo a visibilidade do trabalho da comunidade e valorizando a tradição quilombola.

A Mestra da Produção

Dona Almerinda Pereira Lima carrega mais de 40 anos de experiência na produção de farinha, muito antes da criação da Farinha do Quilombo. Mulher de trabalho firme e rotina intensa, ela domina cada etapa do processo, da limpeza do espaço à fabricação do produto, e é referência para todos no grupo. Ao seu lado, Lourenço Marques Rodrigues, seu esposo, dedica-se às lavouras, cultivando arroz e a mandioca que é a base de toda a produção, garantindo que o trabalho da fábrica tenha matéria-prima e força para continuar.

Além da produção, Dona Almerinda cultiva hortaliças, prepara conservas e o famoso licor de genipapo, mostrando como tradição e criatividade caminham juntas no seu dia a dia. “Todo esse esforço garante a renda para a criação de meus dez filhos e transforma cada sacola de farinha em motivo de orgulho“, ressalta dona Almerinda.

Para ela, mais do que produzir farinha, é um orgulho ser parte do Quilombo da Barra de Aroeira. Mulher sorridente que carrega no rosto a marca do trabalho duro, mas também a alegria de quem se dedica com amor ao que faz. Sua experiência, união com a comunidade e respeito às tradições transformam seu cotidiano em exemplo e inspiração para todos que compartilham da mesma luta e do mesmo sonho.

Rita do Doce

Entre risos, histórias e o cheiro da mandioca fresca, Rita Fernandes Rodrigues transforma a rotina na Farinha do Quilombo em momentos de alegria. Há três anos na produção, ela se dedica com cuidado ao descascar a mandioca, uma tarefa que exige atenção e habilidade, mas que realiza com paixão e orgulho.

Antes de se mudar para o Quilombo, Rita morava em uma fazenda. Ao chegar à comunidade, buscou não apenas um novo lar, mas também uma forma de reforçar a renda e garantir o sustento da família, que inclui sete filhos. Sua energia e dedicação rapidamente a tornaram peça essencial no grupo.

Mas o talento de Rita não se limita à farinha. Com o mesmo carinho que coloca na produção, ela prepara doces, bolos e o famoso doce de leite, mantendo viva a tradição da comunidade e espalhando sabor e afeto por onde passa.

Para a quilombola, o trabalho diário se transforma em prazer quando compartilhado com outras mulheres: entre histórias e risadas, cada gesto reforça a amizade, a união e o orgulho de ser parte do Quilombo da Barra de Aroeira. “Trabalhar com farinha e doces, é mais do que sustento: é amor, cultura e alegria que se perpetuam“, afirma Rita.

A Enfermeira

Ela é a prova de que coragem, trabalho e determinação podem transformar vidas. Entre a produção da Farinha do Quilombo e os bolos, tortas e pães que prepara para os estudantes da comunidade, ela mostra que não há limites para quem acredita em si mesma. Cada gesto inspira outras mulheres a sonhar mais alto e lutar pelo futuro de suas famílias.

Essa mulher é Joana Maria Rodrigues. Mãe de quatro filhos, que cresceu ao lado dos pais que já produziam farinha, povinho, puba e o tradicional bolo de mandioca, aprendendo desde cedo que na mandioca não se desperdiça nada. Hoje, seu dia a dia se divide entre o trabalho ao lado do grupo da Farinha do Quilombo e a produção em sua própria casa, unindo esforço, talento e cuidado com quem a cerca.

Foi conciliando o trabalho na roça com os estudos que Joana se tornou técnica de enfermagem. Ela já possui diploma em Letras e atualmente cursa Enfermagem na Faculdade Anhanguera, em Palmas. Entre seus sonhos, faz questão de contar: Quero trabalhar no quilombo, fortalecer ainda mais a comunidade e seguir sendo exemplo para outras mulheres da região”.

Joana é inspiração: mostra que tradição, trabalho e educação podem caminhar juntos, e que lutar pelo próprio futuro é também um ato de amor e coragem.

União


Juntas, Patrícia, Almerinda, Rita e Joana formam o coração da Farinha do Quilombo, cada uma com sua história, mas todas unidas pelo mesmo propósito: trabalhar com amor, fortalecer a comunidade e garantir um futuro melhor para suas famílias. São mulheres que transformam dedicação em inspiração, tradição em sustento e alegria em exemplo, mostrando que, na Barra de Aroeira, o trabalho com a mandioca vai muito além da farinha: é resistência, cultura e orgulho quilombola que se perpetua de geração em geração.

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