Festa da Colheita do Capim-Dourado: uma tradição que o Jalapão celebra em setembro

por Jornal Folha do Jalapao — 02/09/2026 às 11:08 — em Cidades, Destaques

De 11 a 13 de setembro, o Quilombo Mumbuca revive uma tradição que atravessa gerações e que, há muitos anos, também faz parte da história que o Jornal Folha do Jalapão ajudou a contar.

Há histórias que não se contam apenas com palavras. Elas estão nas mãos de quem colhe, na paisagem que muda de cor ao entardecer, no artesanato passado de geração em geração e na memória de um povo que aprendeu a transformar a natureza em identidade.

No coração do Jalapão, setembro anuncia muito mais do que a chegada de uma nova colheita. É tempo de celebrar uma tradição que atravessa gerações e que encontrou no capim-dourado uma de suas maiores expressões de beleza, cultura e resistência.

É nesse cenário que o Quilombo Mumbuca, em Mateiros, se prepara para mais uma edição da Festa da Colheita do Capim-Dourado, um momento em que comunidade, tradição e cultura se encontram para celebrar um patrimônio que ultrapassou as fronteiras do Jalapão e ganhou o mundo.

Mas, antes de ser conhecido por suas peças douradas, o capim é parte da vida. Está ligado ao território, aos saberes ancestrais, ao trabalho das famílias e a uma maneira própria de enxergar e respeitar a natureza. A Festa da Colheita é, portanto, mais do que uma celebração. É um reencontro com as raízes. É a afirmação de uma identidade. É a história do Jalapão sendo contada pelas mãos de seu povo.

Vivenciar a história

E esta é uma história que o Jornal Folha do Jalapão teve o privilégio de acompanhar de perto. Há mais de 17 anos, a Folha se juntou a essa gente querida para contar suas histórias, registrar suas conquistas e, sobretudo, aprender com seus saberes e sua maneira de enxergar a vida.

Desde as primeiras veredas percorridas até as tantas visitas ao Quilombo Mumbuca, fomos construindo uma relação que ultrapassa o jornalismo. O carinho nasceu logo nos primeiros encontros, especialmente naquela primeira entrevista com Dona Miúda, quando os ensinamentos compartilhados por aquela grande matriarca despertaram em nós uma admiração ainda maior por aquela comunidade, por sua cultura e por sua gente.

De lá para cá, foram muitos encontros, conversas, abraços e histórias compartilhadas. Memórias que guardamos com carinho e que fazem da nossa trajetória também um pedacinho dessa história dourada de Mumbuca. Ao longo de mais de 17 anos, nossas lentes também estiveram presentes em Mumbuca. Fotografias de diferentes edições da Festa da Colheita podem contar, lado a lado, as transformações da celebração, seus personagens e os momentos que ficaram guardados na memória.

Ao longo dessa caminhada, tivemos a alegria de estar perto de Juraci Ribeiro Matos, o Guardião Dourado, guardião da memória, da cultura e dos saberes tradicionais; de Martina Tavares, Mestra dos Brinquedos de Buriti; de Diomar Ribeiro, a Santinha, Mestra da Oralidade e da Continuidade de seu Povo; de Doutora, Mestra Artesã do Capim-Dourado e das Plantas Medicinais do Cerrado; de Arnon Tavares, Mestre da Viola de Buriti; de Ana Mumbuca, Jovem Guardiã da Geração Futura; e de Maria dos Prazeres, a Tetêia, primeira professora do Quilombo.

Em cada encontro, uma conversa, um ensinamento, uma memória e a certeza de que os verdadeiros tesouros de Mumbuca não estão apenas no dourado que brota do cerrado, mas, sobretudo, nas pessoas que preservam, ensinam e fazem essa cultura continuar viva de geração em geração.

E há ainda Sirlene Matos, uma dessas pessoas que fazem o encontro com Mumbuca ser também um encontro de afeto. Jovem educadora e guardiã em movimento, Sirlene abriu as portas de sua casa, nos acolheu, nos hospedou e nos fez sentir parte daquele lugar. Com seu jeito generoso, sua dedicação à educação quilombola e à preservação da cultura, da memória e dos saberes tradicionais do povo Mumbuca, ela representa a força de uma nova geração que mantém viva essa identidade. E, para nós, ela é também dona de um dos sorrisos mais bonitos do Jalapão, daqueles que fazem a gente chegar como visitante e partir levando a sensação de ter estado em casa.

A evolução

Ao longo dos anos, a Festa da Colheita também cresceu, ganhou novos formatos e passou a reunir diferentes expressões da cultura e dos saberes do território. Neste ano, a celebração ganha ainda mais proporção, ampliando sua programação sem perder a essência que a tornou tão especial. Entre as novidades está a Caminhada Dourada, que levará as artesãs pelas principais ruas do quilombo, em uma marcha simbólica, vestindo e carregando o dourado que representa a identidade de Mumbuca.

A programação também resgata uma memória afetiva da comunidade com a natação na Prainha de Sarah, acompanhada de brincadeiras tradicionais de outros tempos, trazendo de volta experiências que fazem parte das lembranças de muitas gerações.

A festa também se abre para receber comunidades vizinhas. As associações do Prata, Boa Esperança, Carrapato e Mateiros estarão presentes na Feira da Colheita, desfilando e apresentando suas próprias variedades do capim-dourado, fortalecendo os laços entre os povos e comunidades que compartilham esse patrimônio cultural.

A programação ganha ainda novos sons com a participação da orquestra baiana Som de Cinzal, além da presença dos presidentes das associações, que terão espaço de fala para compartilhar suas experiências e fortalecer o diálogo entre as comunidades.

Outro destaque será a participação de três escolas estaduais na Mesa Dourada, espaço dedicado à apresentação de trabalhos desenvolvidos pelos próprios estudantes. Uma forma de aproximar as novas gerações da história, da cultura e dos saberes que nasceram no território e que precisam continuar sendo transmitidos.

E, mesmo com tantas novidades, a essência da Festa da Colheita permanece. Entre as atrações que já fazem parte dessa celebração estão a apresentação teatral, seguida do tradicional desfile das peças de capim-dourado, a visita ao campo para a demonstração da colheita, além dos momentos de fé com o show gospel e a música dos cantores regionais.

Assim, a festa cresce sem deixar suas raízes para trás. Muito pelo contrário: quanto mais se amplia, mais caminhos encontra para contar a história de Mumbuca, valorizar seus mestres e aproximar as novas gerações do dourado que há tantos anos ilumina o Jalapão.

E nós, da Folha do Jalapão, seguimos com o privilégio de estar presentes para testemunhar e registrar mais um capítulo dessa história. Uma história feita de gente, de memória, de tradição e de encontros. Uma história que há mais de 17 anos temos a honra de acompanhar de perto e que, a cada setembro, nos lembra por que algumas histórias não são apenas contadas: SÃO VIVIDAS!

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