JALAPÃO: Caminhada Dourada estreia na Festa da Colheita e emociona moradores do Quilombo Mumbuca

por Jornal Folha do Jalapao — 13/09/2026 às 22:50 — em Cidades, Destaques

Primeira edição da caminhada reuniu artesãs, cavaleiros, amazonas e moradores em um percurso pelas ruas da comunidade, celebrando o capim dourado, a cultura e as tradições quilombolas.

Na manhã deste sábado, 12, o Quilombo Mumbuca viveu um momento de emoção e celebração com a realização da Caminhada Dourada, uma novidade que passa a integrar a programação da Festa da Colheita do Capim Dourado. Pelas principais ruas da comunidade, artesãs, cavaleiros, amazonas e moradores participaram do percurso, levando consigo símbolos da cultura e da identidade quilombola.

Carregando peças de artesanato, hastes de capim dourado e entoando músicas ao longo do trajeto, os participantes transformaram a caminhada em uma manifestação de memória, pertencimento e valorização das tradições locais. À frente do grupo, Doutora, mestra artesã do capim dourado e das plantas medicinais do Cerrado, conduziu o percurso.

Na chegada ao portal de boas-vindas, a emoção tomou conta dos moradores. O momento foi marcado por abraços, sorrisos e lágrimas, em uma demonstração do significado da iniciativa para a comunidade. Doutora também não escondeu a emoção e chorou diante da recepção dos moradores, em uma cena que simbolizou a força das tradições que seguem sendo preservadas e transmitidas entre gerações.

A Caminhada Dourada também contou com o apoio das comitivas de cavaleiros e com a participação de Arnon Tavares, mestre da Viola de Buriti, que mantém viva a tradição da construção e da musicalidade desse instrumento característico da cultura regional.

No portal, a comitiva foi recebida por moradores e visitantes que aguardavam a chegada da Caminhada Dourada. O momento ganhou ainda mais significado com a oração conduzida pelo pastor Adailton Dias de Almeida, que abençoou os participantes e pediu proteção para a comunidade, em uma acolhida marcada pela fé, emoção e sentimento de pertencimento.

Participação

Entre os participantes estava Regiane Nunes, supervisora do Parque Estadual do Jalapão, que chegou cedo à comunidade para acompanhar de perto a programação. Com uma relação construída ao longo de anos de trabalho e dedicação a Mumbuca pelo Naturatins, Regiane carrega uma ligação especial com os moradores e é também uma defensora da valorização e da preservação do capim dourado. Ao lado de Doutora, participou de todo o trajeto da Caminhada Dourada e não escondeu a alegria e a emoção de viver aquele momento.

A participação de Regiane Nunes na Caminhada Dourada traduz uma relação construída ao longo de muitos anos com o Jalapão e, de forma especial, com Mumbuca. Moradora da região há 26 anos, ela atua no Naturatins há 16 e, nesse período, estreitou os laços com os moradores por meio do trabalho desenvolvido no território. Supervisora do Parque Estadual do Jalapão, Regiane se considera uma verdadeira jalapoeira e afirma que o Jalapão é sua casa. Na comunidade, a convivência e a atuação em defesa do capim dourado fizeram dessa relação também um vínculo de afeto e pertencimento.

Eu me sinto parte desta comunidade. Aqui realizamos trabalhos importantes em conjunto com a gestão da unidade de conservação, que é compartilhada, garantindo a proteção ambiental do território, a proteção dos campos de capim dourado e o apoio ao manejo de base comunitária”, explica Regiane.

A relação profissional acabou dando lugar também a um forte vínculo de amizade e afeto com os moradores, especialmente com Doutora, por quem Regiane demonstra profunda admiração. Para ela, a mestra representa hoje uma das principais referências da comunidade e uma inspiração para todos que defendem a preservação da cultura e das tradições de Mumbuca.

É muito especial estar ao lado desta comunidade, principalmente da Doutora. Eu me emociono, porque ela é uma referência para todos. Assim como eu tive um contato muito grande com dona Miúda, hoje a Doutora é essa referência, é minha amiga. É na casa dela que eu me hospedo. É um lugar pelo qual tenho um carinho muito grande. Hoje foi muito especial sair pelas ruas, fazendo parte da caminhada ao lado dos moradores. Eles são minha família fora de casa”, afirma Regiane, emocionada.

A jovem educadora Sirlene Matos também participou da caminhada e se emocionou ao falar sobre o significado daquele momento para a comunidade.

É difícil encontrar palavras para descrever o que sentimos nesse momento. Sentimos como se estivéssemos declarando a Deus o nosso reconhecimento pela soberania de todas as coisas. O hino entoado pela tia Doutora soa como uma oração, um pedido para que a importância da nossa comunidade e da Festa da Colheita seja reconhecida. Enquanto o capim-dourado projeta o nome do Tocantins e do Jalapão para todo o Brasil, a sensação que temos, em meio aos inúmeros desafios, é de que não pararemos. Somos um povo resiliente”, afirmou, emocionada.

Emocionada, Sirlene destacou o significado de acompanhar Doutora à frente da caminhada e relacionou aquele momento à trajetória de outras pessoas que contribuíram para a construção da história de Mumbuca e que hoje não estão mais presentes. Para ela, a participação da mestra representa também a continuidade de uma tradição que atravessa gerações e mantém viva a identidade da comunidade.

Presenciar a tia Doutora com essa garra na frente, puxando todos nós, é algo muito especial. É uma honra tê-la viva e vê-la com esse propósito, porque ela inspira as pessoas. E tantos outros que não estão mais entre nós, como a Vó Miúda, a Vó Lorentino e o Maurício. Nós somos passageiros, os momentos são únicos, e a nossa Festa da Colheita promove esse momento de conhecer novas pessoas, criar contatos e fazer novos amigos”, conclui.

A primeira edição da Caminhada Dourada encerrou seu percurso deixando entre os participantes o sentimento de que a iniciativa veio para integrar a programação da Festa da Colheita e reforçar, pelas ruas de Mumbuca, a força de uma tradição construída ao longo de gerações. Entre o artesanato, a música, a fé e a presença dos moradores, a caminhada evidenciou que a preservação do capim dourado também passa pela memória, pelo pertencimento e pela participação de quem mantém viva a história do quilombo.

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