Moradores da Comunidade Barra do Aroeira mostram orgulho da cultura local e alegria em receber título de terras

por Wenina — 04/09/2021 às 14:13 — em Cidades, Destaques

Os quilombolas do Município de Santa Tereza do TO já podem dizer que as terras pertencem oficialmente às famílias locais. A alegria do sonho concretizado e a gratidão pelo momento foram demonstradas ao governador Mauro Carlesse durante a cerimônia de entrega do título de propriedade.

Vestir a camisa para receber o tão sonhado título de propriedade de regularização fundiária foi um gesto de gratidão ao Governo do Estado, dos moradores da Comunidade Quilombola Barra do Aroeira, em Santa Tereza do Tocantins. O governador Mauro Carlesse fez questão de também vestir a camisa ao chegar à Escola Municipal Horário José Rodrigues, quando foi presenteado pelos moradores.

No rosto de cada quilombola, o que se via nesta sexta-feira, 3, eram lágrimas de alegria, emoção e sorrisos. O processo que originou a titulação definitiva teve início, formalmente, em 2004, quando foi criada a Associação dos Quilombolas da Comunidade Barra do Aroeira. Nesse período eles conquistaram um Termo de Permissão de Uso, mas com prazo de validade próximo, a luta continuava. 

Desde o início da década de 1980, a comunidade se mobilizava pelo reconhecimento das terras que foram dadas por Dom Pedro II ao negro Félix José Rodrigues por lutar na Guerra do Paraguai.  Ao longo da História, fazendeiros foram se instalando nas proximidades da região, tomando parte do território e os descendentes de Rodrigues ficaram limitados apenas a 12% da área original.

O documento entregue põe fim a uma luta de mais de 100 anos pelo reconhecimento do direito à terra e foi comemorado com muita dança e um almoço.

Gratidão

A presidente da Associação de Quilombolas da Comunidade Barra do Aroeira, Maria de Fátima Rodrigues, recebeu das mãos do governador o Título. Ela acredita que além de melhorar o acesso a programas de assistência rural, outros processos serão destravados a partir da conquista desse título, como por exemplo, aposentadorias. “Aqui na Comunidade para aposentar é uma dificuldade muito grande, já tentamos trazer posto de saúde para cá, solicitamos máquinas para poder trabalhar na terra, mas sempre quando chegava nessa parte da documentação era recusado. Mas agora com esse título nós poderemos até pegar empréstimos para poder investir na terra”, comemorou.

A aposentada e produtora rural, Izabel Rodrigues, tataraneta de Félix José Rodrigues, ajudou a fundar a comunidade que hoje é composta por cerca de 120 famílias. O sorriso não saia do rosto e nem a história dos anos de luta dos lábios. A idosa fez um discurso inspirador ao falar de sua preocupação com as futuras gerações da Comunidade.

“Quando eu ouvia no meu radinho lá em casa o senhor entregando título em outra comunidade eu chorava e pedia a Deus para o senhor vir entregar aqui também. Antes a gente imaginava e não podíamos fazer nada porque não tínhamos os documentos e hoje vamos poder fazer. A luta foi difícil e vencemos! A bala que estamos recebendo hoje é o título na nossa mão, não temos que pensar em coisas ruins. Governador, olhe para nossos jovens, para nossa comunidade, vamos acolher esses jovens para que eles não vivam como eu vivi, sem estudo. Mas agradeço a Deus e ao governador Mauro Carlesse por ter tomado essa atitude de nos ajudar e hoje estamos aqui comemorando o nosso título”.

O advogado e presidente da comissão de igualdade racial da OAB, Domingos Rodrigues, atuou no processo de regularização representando a Associação e lembrou um pouco dessa trajetória marcada pela persistência de seu povo. “Eu nasci aqui nessa região, mas quando eu tinha dois anos de idade meu pai foi expulso daqui pelos fazendeiros. E eu cresci, fui para a faculdade, fiz direito, com um único pensamento: regularizar essa terra, que é uma herança dos nossos ancestrais. E hoje nós estamos transbordando de alegria porque nós podemos dizer: Essa Terra é Nossa”. 

Emocionada, a artesã Natália Rodrigues, de apenas 24 anos, revelou que receber esse título prova que os descendentes de Félix Rodrigues sempre tiveram direito ao território onde vivem.  “Nós já fomos taxados de ladrões, preguiçosos, e agora com esse título nós sabemos que ninguém vai nos tomar a nossa terra e isso é uma alegria muito grande para nós”.

A vereadora da Comunidade, Maria Edileuza, se emocionou. “Minha mãe morreu lutando por esta causa, quantas pessoas tinham o sonho de ver isso acontecendo e agora estamos vendo”, disse. A líder comunitária Patrícia fez questão de usar seu turbante para expressar a cultura local. “Para nós é um momento de conquista, de felicidade de continuarmos uma luta ancestral. A comunidade está em festa e emocionada!”.

Durante o evento, o presidente do Rutaltins, Fabiano Miranda, entregou mais de 50 mudas de mandioca aos produtores Orlando e Patrícia Maria Rodrigues.

Compartilhe no:
MAIS NOTÍCIAS

Você pode gostar

PALMAS: Projeto agroecológico da ETI Fidêncio Bogo promove compreensão do solo como sistema vivo

Iniciativa utiliza gongolos para transformar resíduos orgânicos em adubo e fortalecer consciência...

Novo Acordo terá celebração especial pelo Dia da Mulher neste sábado, 7

Programação contará com caminhada, aulão de zumba, café da manhã e sorteio...