Colheita do Capim-dourado reforça maior tradição do Quilombo Mumbuca

por Wenina — 12/09/2022 às 15:49 — em Cidades, Destaques

O ‘ouro’ do Tocantins, a riqueza do Jalapão, a haste que representa uma cultura única: assim é considerado o capim-dourado, que após manuseado se transforma em peças de beleza rara. A colheita representa uma tradição secular e revela uma série de memórias do povoado Mumbuca

Por Nayla Oliveira*

O olhar do jalapoeiro ao observar a vereda cheia de capim-dourado transmite o amor, o brilho, a realização de quem vive para preservar e cuidar de um dos maiores patrimônios culturais do Tocantins. O Capim-dourado é o responsável pela expressão de uma cultura popular e pela renda de centenas de famílias. A Festa da Colheita do Povoado Mumbuca neste ano antecedeu o período em que os extrativistas podem começar a retirar as hastes do solo, que se inicia no próximo dia 20 de setembro.

A demonstração da colheita do capim ocorreu neste domingo, 11, em momentos que reforçaram  a representatividade da cultura local, do amor pelo artesanato e o saudosismo pelos antepassados do Quilombo. A artesã Noemi Ribeiro (Dotora) é uma das líderes que acompanha o momento. Com sua alegria e jeito espontâneo, a quilombola fez orações pelos que estiveram presentes na festividade e entoou canções pedindo bençãos para  comunidade.

Homenagens

A homenagem especial ao cantor Maurício Ribeiro (in memoriam) foi o ápice do evento, que pela primeira vez contou com o toque da violinha de buriti. Companheiros de Maurício em muitas ocasiões comemorativas, o quilombola Arnon Ribeiro e o músico novoacordense Missim da Viola de Buriti deram o tom à trilha sonora da demonstração da colheita, entoando músicas de autoria própria em homenagem ao cantor que faleceu no ano passado, além de músicas alusivas ao capim-dourado, ao Quilombo e as tradições sertanejas.

A emoção tomou conta das artesãs que foram recepcionadas na vereda ao som da violinha e com músicas de boas-vidas. A ausência do músico que foi o responsável por disseminar a violinha de buriti pelo mundo foi sentida pelos moradores e por quem sempre faz questão de prestigiar o momento mais importante da Festa.

“Perdemos um grande amigo que foi o Maurício, estamos aqui na vereda e neste momento queremos cantar em homenagem a ele, essa pessoa que fez tanta falta. A festa da colheita não é a mesma sem ele, mas nós temos a responsabilidade de dar continuidade a essa tradição”, disse o músico quilombola Arnon Ribeiro.

Tradição

Acompanhadas de moradores e autoridades locais, as extrativistas demonstraram o amor pela tradição da colheita. Os refrões das músicas do capim-dourado ecoaram na vereda com as vozes potentes das artesãs, que cultivam no solo não só a haste, mas também o respeito pela natureza e uma memória secular.

A quilombola Sirlene Matos possui uma voz marcante e que se destaca nas cantorias da colheita. A artesã salienta que a haste do capim não é somente o pão na mesa, mas também uma herança dos mais velhos. “Estar aqui é dizer de fato, que tem capim-dourado, ainda mais sendo recebidos com música, isso quer dizer que nosso trabalho está sendo visto e valorizado. O capim-dourado para mim é pão na mesa, mas ele também representa a nossa Laurina, a dona Miúda, a Laurentina, todos os nossos antepassados, e isso para nós é um legado”, disse.

A artesã Elizabeth Melquíades fez questão de participar da demonstração. Ela conta que foi aconselhada a aprender a arte de costurar ainda quando criança e que sempre houve a preocupação com a conservação.  “Temos que tirar o capim na época certa e jogar as flores novamente nas veredas, se não acaba tudo e não tem mais. Desde o tempo que eu era pequena, que Dona Miúda que nos ensinava a costurar já sabíamos disso. Ela nos aconselhou a sempre costurar o capim para ter a nossa renda e a conservar o capim-dourado”, disse.

Para a jovem Léia Gomes, a responsabilidade em dar continuidade à tradição é grande. Neta de dona Laurentina, uma das precursoras da arte, Léia foi a artesã mais jovem a participar o momento. “Aprendemos com nossos antepassados e temos que repassar para a próxima geração, ensinando a preservar, essa é uma luta que estamos dispostos a travar. A gente sente que está diminuindo a quantidade de capim e vemos o cuidado da fiscalização, especialmente do Naturatins, pois toda a comunidade espera a data correta. Para nós não é somente colher, mas há um sentimento e cuidado com o capim”, disse a jovem.

Gratidão

Neste ano, a demonstração teve um diferencial: as artesãs foram recepcionadas com um café da manhã, ofertado pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Meio Ambiente e Turismo (Sedematur). Um cenário com os itens locais e fotos da colheita fez as extrativistas se emocionarem.

O momento contou com a presença do prefeito Pastor João Martins, primeira-dama Mariene Tavares, secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Meio Ambiente e Turismo, Thaysa Damarchi, secretário municipal de Esporte, Geinival Ribeiro, além do vereador quilombola, Jurailton Matos (Cural). 

A cultura raiz do quilombo é apreciada e vivenciada pelo prefeito Pastor João Martins, como ele ressalta. “É emocionante participar disso, ver a alegria no rosto dos quilombolas que a partir do dia 20 estarão nas veredas colhendo o capim. Para mim é muito gratificante, fico feliz em contribuir para que essa tradição fique para os nossos filhos e netos. Que todos que tenham a oportunidade possam vir conhecer essa cultura e a realidade dos que vivem aqui”, disse o prefeito.

A primeira-dama Mariene Tavares se emocionou ao relatar seu amor pelo capim-dourado. “Eu fui nascida e criada nesta cultura, e amo esse povo que acompanhamos, apoiamos e fazemos questão de estar presentes nestes momentos. Isso para nós não tem preço, é algo singular que vai ficar eternamente guardado em nossos corações”, afirmou.

A secretária de Meio Ambiente e Turismo, Thaysa Demarchi, foi a responsável pela organização da demonstração e reforçou que o Poder Público está a postos para apoiar a comunidade. “Nós queremos agradecer todos os parceiros que fomentaram essa festa, Energisa, Sebrae, Governo do Estado, e a toda a equipe do Naturatins que tem travado uma batalha diária pela conservação destas veredas. Somos gratos por ter a oportunidade de vivenciar este momento tão importante”, comentou.

A primeira-dama Mariene foi ainda agraciada com um presente que foi entregue pela diretora da Folha do Jalapão, Wenina Miranda: uma tela contendo pinturas com aspectos voltados para a cultura quilombola. “Essa tela representa para nós o amor que temos por este povo, por esta tradição, a forma como somos acolhidos e a nossa alegria em poder registrar esse momento de forma única. Fazemos isso com muito amor e sempre buscando o envolvimento com toda a comunidade”, comentou a jornalista.

O registro de entrega contou ainda com a participação da cantora Núbia Dourado, que integrou a demonstração, assim como outros moradores locais.

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