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Benzedores da alma, do corpo e do coração

Postado em 28/04/2020

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ESPECIALpor Wenina Miranda

 Espinhela caída, quebranto, mau olhado. Quem é do interior, provavelmente, já ouviu essas expressões e, na sequência, um conselho: é melhor se benzer. Esse costume também tem seu espaço na cidade de Aparecida do Rio Negro.


A benzeção é uma prece feita através da força da fé e do pensamento elevado a Deus com pedidos para conceder a cura, trazer bênçãos e limpeza do espírito. As benzedeiras, rezadeiras ou simplesmente as curandeiras tem como atividade a reza. Muitos acreditam que tal ação é folclore, mas já existem pesquisas cientificas no campo da espiritualidade, na prática clínica, que destacam os efeitos da fé na cura.


Eles não cobram pelos serviços prestados e nem saem às ruas oferecendo seus serviços, mas recebem em suas casas todos que os procuram.  Cada benzedor tem seu método. Algumas usam terços, outras preferem um galho de arruda, uma Bíblia ou simplesmente um pedaço de pano. O mais importante é ter fé e conexão com quem está buscando este auxílio.


Na cidade de Aparecida do Rio Negro, a equipe da Folha do Jalapão, visitou dona Maria Pernambucana, seu Leondas Aquino, senhor Lourenço Rocha e dona Maria de Sousa, moradores que ainda preservam a tradição. Através de plantas medicinais e orações, ajudam a curar crianças, adultos e idosos que procuram por eles.  

Fé é a principal ferramenta de trabalho

Com um lindo sorriso no rosto, dona Maria Ferreira, popular Maria Pernambucana, 70 anos, recebe a equipe da Folha e nos conta parte de sua história no ramo da cura. A senhora não esconde a alegria em poder ajudar as pessoas na hora do sufoco. “Muitos já chegaram aqui engasgados com espinho de peixe, osso de frango ou alguma coisa parecida”, conta a senhora lembrando que por muitas vezes a pessoa já sai de lá desengasgado.


Com sua Bíblia na mão, ferramenta principal para a oração, dona Maria lê parte da oração que está no livro de João, capitulo 5,  que costuma fazer para ajudar o povo engasgado e nos conta como adquiriu o dom. “Aprendi os ofícios de ajudar o próximo ainda jovem, com minha mãe”. Hoje, aos 70, ainda exerce a atividade que, segundo ela, não é benzeção, e sim uma oração feita com muita fé.  “Eu não me vejo uma benzedeira, eu uso a Bíblia, eu uso a palavra de Deus para ajudar o próximo. A fé tem que ser junto com a pessoa precisada, sintonia das duas pessoas”, conta.


Dona Maria relata que já passou alguns sufocos até o engasgado finalmente desengasgar. Ao lembrar de alguns fatos vividos, a senhora diz que já passou muitas noites acordada à espera da confirmação. “Muitas noites eu fui dormir só de madrugada, quando a pessoa liga e dá a notícia do benefício, por que isso acaba mexendo com a gente que quer ver a cura do outro”, ressaltou a senhora.


As lembranças de sua juventude ainda estão vivas na memória da senhora que conta como aprendeu a rezar o terço, que naquela época era feito de joelhos até o galo cantar. “Em meu tempo a gente rezava até as duas da madrugada, eu cochilava e o galo cantava, mas a gente rezava, ali a fé era tão grande que não tinha sono que atrapalhasse. Naquela época as mães ensinavam os filhos, hoje, se você rezar o santo terço em sua casa você é descriminada, por causa das religiões. Sinto saudades”, concluiu dona Maria.

Saber que não se esquece

Os benzedores são detentores de um saber ancestral, capaz de curar praticamente tudo, e estão presentes na memória de muitos aparecidenses. Um dos pioneiros que por muitos anos teve essa habilidade foi seu Leondas Aquino dos Santos, hoje com 66 anos, sedo muitos deles dedicados a “benzer” pessoas e lugares no Município.


Aparecidense de nascimento, seu Leondas tirava quebranto, mal olhado, pragas de lavouras, e até animais como onças e cobras de fazendas, como ele mesmo conta. “Eu tangia cobra de fazenda, benzia de lagarta, tirava quebranto, fazia tudo isso. Onça pegando gado em fazenda, eu fazia ela mudar dali”, relembra.


Desde que tinha 18 anos ele aprendeu a prática. “Aprendi com um senhor de  nome Tita, que tinha aqui, eu quis aprender para ajudar o povo. Aprendi levantar arca, benzer de ‘ofendido’.  Naquele tempo o povo precisava muito, não tinha médico, e muita gente procurava. Depois que ele foi embora eu fiquei fazendo isso”, relembra seu Leondas.


E essa tradição, que parece estar extinta junto com o conhecimento de muitas avós que já não estão mais presentes, ao pouco está sendo resgatada no município. O saber popular mostra que não há doença que não se benza. Os benzedores costumam ter “remédio” para espinhela caída (dor na boca do estômago, nas costas e pernas), carne quebrada (dor muscular), cobreiro (herpes), quebranto (mau-olhado), encosto e vários tipos de males, do corpo ou da alma.

A procura por seu Leondas era grande, mas após um problema de saúde em 2014 ele não pôde mais benzer. “Às vezes passava o dia todo em uma roça, e saia tudo. Hoje não tenho mais cabeça, saúde para fazer, mas sinto saudade. E isso acabou, está se perdendo, achei que isso era mais valorizado e não tem mais. Ainda assim tem gente que procura até hoje, mas não faço mais por causa da saúde”, conta.

Alegria em ajudar o próximo

A devoção da jalapoeira Maria de Sousa, 59 anos, pode ser notada assim que você chega em sua loja que fica situada em frente a Praça José Eurico Costa. Um pequeno altar com imagens de vários santos é mantido no estabelecimento. Ao receber a equipe da Folha, a simpática senhora nos convidada para sentar na frente da loja, um local que proporciona a visão da igreja católica da Cidade. “Vamos conversar de coisas boas, olhando para essa linda igreja aqui em nossa frente”, convida.  


Acostumada ao benzimento na cidade onde vive há 30 anos, a comerciante sempre traz um riso estampado no cara. Dona Maria, mesmo em tempo de pandemia, fez questão de nos dar um abraço apertado para desejar as boas-vindas.


Mesmo sendo uma pessoa reservada, de poucas conversas, dona Maria nunca dize não para os que buscam por ela. O dom descoberto aos 15 anos de idade, época que vivia ao lado da família, ainda é muito usado na cidade.
Com seis raminhos de rosas, a rezadeira satisfeita tira o quebrante das crianças. “Muitas mães, falam que sou boa pra rezar, a mesma coisa que falavam para a minha mãe”, lembra. Ao falar da mãe, a senhora se emociona e conta que sua casa era cheia de gente todos os dias. “O povo chamava minha mãe de Mãe Didi, as vezes bate uma saudade grande aqui no peito, mas Deus me deu bons amigos, para eu não ficar só”, conta.
Dona Maria sorri ao falar das vezes que as pessoas sorriem por não acreditar no seu ofício. “Muitas vezes os jovens que passam aqui e me vê benzendo, criticam de mim, fala que estou fazendo anarquia. Mas tenho humildade suficiente para explica que estou apenas benzendo, por que a criança que tem quebrante, tem uma dor de barriga muito grande, e eu não posso deixar de ajudar”, frisou.  

Fé que faz acontecer

Um dos principais dons de Seu Lourenço Rocha dos Santos, de 70 anos, é levantar arca caída, e até hoje faz “benzimentos” em Aparecida do Rio Negro. “De primeiro, quando era novo, rezava pra dor de dente, hoje eu esqueci, mas fazia”, conta ele ao Folha do Jalapão.


O baiano chegou ao Município em 1977, e desde cedo aprendeu a benzer. “Eu era ‘mulecote’, e vivia perrengue. Tinha uma mulher que benzia e ela e me benzia. Eu era muito curioso, pelejava com ela pra ela me ensinar. Eu ficava ‘curiando’ e aprendi”, lembra o benzedor.


Seu Lourenço lembra ainda que era bem novo quando levantou a primeira arca. “A pessoa acreditou em mim. Para levantar uma arca a gente fala umas palavras, uma oração com Deus e pronto. A pessoa tem fé e dá certo, e é isso que faz a diferença”, diz.


Para saber se a espinhela está caída, tira-se a medida. Com um fio de algodão ou uma toalha, a benzedeira mede da ponta do dedo mínimo à ponta do cotovelo. Depois de um ombro ao outro. Se coincidirem as medidas, a espinhela está normal. Se não, está caída.


Após um problema de saúde o benzedor diminuiu a prática, mas ainda existe procura. “Antes era bem mais, esse povo novo não acredita. Já levantei criança ali naquele hospital. Faço para pessoas de todas as idades. Tem dias que vem uns três me procurar e ainda levanto. Me esforço e atendo. Isso é um dom, poder ajudar as pessoas, é uma alegria, a gente não cobra por isso”.


Seu Lourenço também rezava de “izipa”, e conta muitas histórias. “Eu era vaqueiro, cheguei numa fazenda, o senhor tava lá com a perna pra cima, machucado vermelho com espinha, rezei, ficou curado, ele não acreditava”, relembra.


Mesmo com todo o avanço da medicina, o desenvolvimento de novos medicamentos, equipamentos e formas de tratamento, a crença no poder de cura dos benzedores segue sendo uma alternativa para o enfrentamento às enfermidades. No entanto, a falta de interesse das novas gerações em adquirir esta sabedoria popular passada pelos mais velhos através da oralidade, sinaliza para uma redução significativa do número de adeptos da prática.

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