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CAPIM DOURADO: Artesã mudou a vida com artesanato tradicional da região do Jalapão

Postado em 17/06/2020

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ESPECIAL: Por Wherbert Araújo

Passados 20 anos, moradora do povoado Prata em São Félix do Tocantins aprendeu a fazer peças de artesanato, já se encontrou com presidentes brasileiros e pôde conhecer o mar.

São dez horas da manhã de um junho ensolarado. Dentro de casa, a moradora do povoado do Prata, comunidade tradicional quilombola localizada a 16 quilômetros do município de São Félix do Tocantins, região do Jalapão, Darlene Francisca de Souza organiza a casa e se prepara pra embarcar rumo ao Recife, capital de Pernambuco, onde mais uma vez ela vai ter a oportunidade de divulgar o artesanato oriundo do capim dourado e também dialogar sobre sustentabilidade e preservação ambiental.

Residente em uma área ainda preservada de cerrado nativo, sua rotina é acompanhada do cantar de pássaros graúna, também conhecido por “passo preto” pelo povo jalapoeiro. “Essa cantoria dura o dia inteiro e na hora do almoço fica até mais alta. Eu acho bonito. É diferente”, ressaltou a moradora.


Aos 52 anos, nascida e criada na região, casada e mãe de quatro filhas, a artesã anteriormente vivia apenas da agricultura de subsistência. Em meados da década de 90, ela viu sua vida se transformar 20 anos depois que começou a produzir artesanato em capim dourado, que apesar de que muitas pessoas acreditem, ele não é uma gramínea e sim uma flor nativa da região da família das sempre-vivas. “A gente andava pelas veredas e achava bonito, mas não usava pra fazer artesanato”, afirmou. Foi quando o Jalapão começou a ganhar espaço nos destinos de ecoturismo do Brasil que o artesanato produzido pela planta tornou-se seu maior símbolo. “Fiz o curso, mas confesso que as primeiras peças ficaram muito feias. A gente olhava praquilo e achava muito feio”, relembrou sorridente.


Foi com as edições do Rally dos Sertões, ainda na década de 90, inserindo o Jalapão no roteiro das competições, que o artesanato local começou a ser comercializado. “Os participantes vieram aqui e levaram tudo. Depois disso não só eu, mas as outras mulheres se interessaram a fazer artesanato. As vendas fizeram tanto sucesso que hoje até alguns homens costuram o artesanato. Alguns fazem peças escondidos por vergonha, mas fazem”, ressaltou.

Parcerias


Contando com o auxílio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), as artesãs receberam capacitações de comercialização, idealização de novas peças e também apoio logístico na participação em eventos culturais que difundam o artesanato e potencialidades turísticas do Tocantins. É o caso da participação de Darlene no evento de Pernambuco. Considerada a maior feira de artesanato da América Latina, a 19ª edição da Fenearte foi realizada entre 04 a 15 de julho de 2018 no Centro de Convenções de Pernambuco.


Na ocasião, a artesã levou produtos de outras companheiras do povoado para comercializar. “Depois que comecei a produzir artesanato já tive a oportunidade de conhecer muitas cidades grandes como Belo Horizonte, São Paulo, Salvador e Recife, além de conhecer dois presidentes do Brasil”, afirma Darlene.


As constantes participações já proporcionaram mostrar suas peças para dois presidentes brasileiros e também deram-lhe a chance de conhecer o mar. “Quando eu entrei na água não sei o que aconteceu, senti uma coisa boa mas depois me deu foi uma febre”, lembra. Outra coisa também que lhe chamou a atenção foi quando viajou pela primeira vez de avião. “É uma sensação boa, mas tem artesã aqui que não tem quem faça viajar. Então eu acabo tendo que ir a todas às vezes porque elas têm medo”, afirmou.


Para a coordenadora do artesanato do Sebrae Tocantins, Celina Soares, essas iniciativas de participar de eventos fora do Tocantins são estratégicas para fortalecer o segmento do artesanato local. “O Sebrae incentiva a participação de artesãos tanto individuais, quanto cooperativas ou associações em feiras locais e nacionais. A participação na Fenearte abre novos mercados, possibilita que esses artesãos conheçam novas tendências e se envolvam em rodadas de negócios. Além disso, o artesanato tocantinense ganha visibilidade, já que se trata de uma feira nacional”, explicou.

Sustentabilidade


Preocupada com a redução do período chuvoso, essencial para o surgimento de novas flores de capim dourado, Darlene lembra também que a ação do homem pode ser um dos fatores da diminuição da matéria-prima. “A gente vê muitas pessoas arrancarem o capim, mas não espalham nas veredas as sementes. Sem elas como o capim vai nascer de novo? Outra coisa também é que a chuva tem diminuído. Antigamente o inverno era longo, agora está mais fraco. Em 2016 sofremos muito com a seca, mas no ano passado graças a Deus choveu mais. A gente depende da natureza”, enfocou.


Também sobre a preparação da comunidade para o turismo receptivo de base comunitária, a artesã ressalta que as capacitações realizadas pelo Sebrae estão despertando nos moradores do Povoado do Prata as ações para o turismo receptivo de base comunitária, onde o visitante pode vivenciar os costumes e as vivências de comunidades tradicionais localizadas no Jalapão. “As pessoas querem ver o modo como a gente vive. Aqui é muito famosa a rapadura e eles querem ver como fazemos, usando engenho manual. Eu inclusive estou mudando minha casa para receber turistas que quiserem conhecer o nosso modo de vida. Acho que isso vai ser muito bom pra gente”, afirmou.


Sobre o ofício, Darlene destacou, “hoje, depois de 20 anos eu gosto das minhas peças, tenho orgulho do que faço, todo dia tenho que costurar, senão eu adoeço, não sei me ver sem o capim. Ele é a maior fonte de renda da comunidade e vejo que a nova geração mantém a vontade de trabalhar com o capim”.

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