Comunidade quilombola reúne cultura e solidariedade para avançar na construção de Casa de Farinha no Território Boa Esperança

por Wenina — 31/08/2026 às 09:23 — em Sem categoria

Mobilização promovida pela AJAQUITEBE reuniu apresentações circenses, artistas da cultura popular e moradores, e arrecadou recursos para a construção da Casa de Farinha Comunitária da Boa Esperança.

A Associação Jalapoeira das Comunidades Quilombolas do Território Boa Esperança (AJAQUITEBE) promoveu, na sexta-feira, 28 de agosto, um evento solidário e cultural voltado à arrecadação de recursos para a construção da casa de farinha comunitária. O espaço será destinado às vivências culturais da comunidade e também deverá receber a II Festa da Farinha da Boa Esperança, prevista para acontecer em novembro deste ano.

A programação reuniu cultura, solidariedade e participação comunitária em torno de um projeto considerado importante para as comunidades quilombolas do Território Boa Esperança. A iniciativa contou com o patrocínio da agência de Turismo Regenerativo Cerrado Rupestre e o apoio das prefeituras de Mateiros e São Félix.

Antes do evento solidário, o Circo Os Kaco percorreu escolas de São Félix do Tocantins e Mateiros para apresentar o trabalho e convidar crianças, jovens e famílias para a programação. No Quilombo do Prata, em São Félix do Tocantins, o grupo se apresentou na Escola Municipal Cantinho do Céu, na Escola Estadual Sagrado Coração de Jesus e na Escola Municipal Miguel Rodrigues de Sousa. Em Mateiros, as apresentações aconteceram na Escola Municipal da Fazenda Nova e na Escola Municipal da Boa Esperança. O circuito levou arte e cultura a crianças e jovens de comunidades tradicionais e quilombolas do Jalapão, muitos dos quais, em sua grande maioria, nunca haviam assistido a um espetáculo de circo.

Enquanto a companhia percorria as escolas e fazia o convite para o evento de culminância, realizado na sexta-feira, 28, na sede da Associação AJAQUITEBE, a presidente da entidade e anfitriã da programação, Irene Ribeiro da Silva, cuidava dos preparativos para a festa cultural. Quilombola, artesã e agricultora, Irene acolheu a companhia Os Kaco e também apresentou aos integrantes o legado cultural da comunidade. Durante a recepção, ofereceu refeições da cultura alimentar tradicional e mostrou o artesanato de capim-dourado manufaturado e manejado pelas associadas extrativistas, artesãs e chefes de família da comunidade.


A ideia de realizar o evento surgiu a partir de uma conversa entre a produtora cultural Andrea Lambertucci e a presidente da AJAQUITEBE, Irene Ribeiro da Silva. O objetivo era reunir uma programação cultural que, além de proporcionar uma experiência artística às crianças da comunidade, contribuísse para a arrecadação de recursos destinados à construção da casa de farinha comunitária.

Quando Andrea Lambertucci me contatou para falarmos da possibilidade de organizarmos um evento cultural para arrecadarmos recursos e construirmos a casa de farinha comunitária, aceitei no instante”, contou Irene. Segundo a presidente, poucos minutos depois, Andrea voltou a entrar em contato para informar que Flávia Rodrigues, do Circo Os Kaco, havia se prontificado a fazer a programação acontecer e mobilizado a equipe para realizar as apresentações de forma voluntária. “Meu coração ficou muito agradecido. Pela primeira vez, as crianças da Boa Esperança iam ter a experiência de vivenciar um espetáculo artístico”, afirmou.

Andrea Lambertucci, produtora cultural que representa o município de Mateiros na área da Cultura, trabalha há dois anos junto à equipe municipal em ações voltadas ao mapeamento de Mestres e Mestras locais, à efetivação de políticas públicas culturais e à promoção da economia criativa.


Este evento nos engrandece em vários sentidos. Primeiro, evidencia que a economia criativa é um ótimo caminho para o fortalecimento da autonomia das comunidades quilombolas no Jalapão. Em segundo lugar, demonstra que a força do sonho coletivo pode mover qualquer obstáculo. Sem dúvidas, este evento ficará para sempre na memória afetiva da comunidade”, declarou Andrea.

Além do espetáculo circense, a programação contou com apresentações de Mestres da própria comunidade. Entre eles estiveram o compositor e comunicador popular Seu Adão Ribeiro, do programa Beira da Roça; Zé Biruta, que apresentou versos autorais sobre a história do Jalapão; e os Foliões do Divino Espírito Santo de Mateiros. A noite também teve a participação do Mestre Domingos Dedo de Ouro, artista e agricultor morador da comunidade Boa Esperança, que animou a programação ao som da sanfona.

Para o secretário de Turismo e Meio Ambiente de São Félix, José Paulo “Bandinha”, a realização do evento reforça a importância da cultura popular produzida no território. “O Quilombo Boa Esperança é um berço cultural no Jalapão, terra de foliões e artistas da Cultura Popular. A Prefeitura de São Félix fica lisonjeada de ser parceira de um evento que enaltece a comunidade e visibiliza os talentos, inserindo os artistas locais na cadeia cultural regional e os profissionaliza para trabalhar com Turismo Patrimonial e Turismo Cultural”, comentou.

Circo Os Kaco

O Centro Cultural Circo Os Kaco é uma organização artística e social localizada no distrito de Taquaruçu, em Palmas, Tocantins. O espaço mantém a única lona de circo fixa do estado e desenvolve o primeiro projeto de Circo Social da região Norte do Brasil.

A participação no circuito também proporcionou aos artistas pré-adolescentes do Circo Social Os Kaco o contato com manifestações da cultura tradicional jalapoeira. A experiência fez parte de uma imersão em Educação Patrimonial, permitindo aos jovens conhecer práticas e saberes das comunidades visitadas. Entre as atividades, eles acompanharam o feitio tradicional da rapadura no Quilombo do Prata, ao lado do patriarca quilombola da comunidade, Seu Dotô, e de seu filho, Osvaldo Francisco de Sousa, presidente da Associação Comunitária Quilombola dos Extrativistas, Artesãos e Pequenos Produtores do Povoado do Prata.

No dia 28 de agosto, o evento de culminância teve início às 18 horas, na sede da associação. Antes do espetáculo, as crianças da comunidade participaram de uma oficina de introdução aos malabares, ministrada pelo artista Kadu Oliviê. Na sequência, o público foi recepcionado pelos Pernaltas do Circo, reunindo pessoas de diferentes gerações. As crianças que participaram da oficina receberam materiais para continuar praticando e desenvolvendo em casa o aprendizado adquirido durante a atividade.

Segundo Kadu Oliviê, a decisão de participar da programação no Jalapão esteve ligada à proposta do Circo Social de levar atividades artísticas para comunidades tradicionais e regiões com menor acesso a esse tipo de manifestação cultural.

Aceitamos de imediato nosso convite ao Jalapão porque entendemos que a experiência de levarmos um espetáculo artístico além das fronteiras urbanas, em comunidades tradicionais, faz parte da nossa missão com o Circo Social. Sentimos a responsabilidade de abraçar causas que semeiam talentos emergentes em regiões de difícil alcance às expressões artísticas e ao fazer cultural. Durante todo o circuito interagimos com Mestres e Mestras, e conseguimos providenciar uma vivência de produção cultural a jovens da comunidade, como no caso do guia quilombola Divino Carvalho de Oliveira, que tem feito toda diferença em nosso percurso pelo Jalapão e tem se integrado à equipe muito profissionalmente”, relatou o artista, que há poucos dias celebrou uma trajetória de 20 anos no picadeiro.



A programação reuniu diferentes números artísticos e teve a participação dos jovens artistas do Circo Os Kaco, dos palhaços e do Mestre Paraíba dos 8 Baixos. A sede da associação ficou lotada durante o evento, enquanto as mesas de feira mantiveram movimento durante a programação. O rancho de palha da associação também foi ocupado pelo público. Entre os moradores mais velhos da comunidade, o espetáculo despertou uma expectativa que, segundo o relato da organização, remetia a um antigo sonho de infância.

Os recursos arrecadados durante o evento serão destinados à construção da casa de farinha comunitária. A estrutura deverá contribuir para a soberania alimentar e para a permanência digna das famílias no território, além de possibilitar a criação de um espaço cultural e de memória na área de uso coletivo da AJAQUITEBE. A associação também vem planejando um mapa turístico local para receber pessoas interessadas em vivências culturais e no aprendizado dos saberes e fazeres ancestrais presentes no cotidiano das comunidades quilombolas.

A realização do circuito contou ainda com o patrocínio da agência de Ecoturismo e Turismo Regenerativo Cerrado Rupestre, que apoiou os transportes e a logística dos cinco dias de apresentações do circo nas escolas. Empresas e empreendedores locais também participaram da mobilização. É o caso de Delci Batista dos Santos, do Fervedouro Beija Flor, que convidou a equipe para um almoço e para conhecer o fervedouro.

No dia seguinte ao encerramento da programação, a AJAQUITEBE realizou a apuração das vendas e informou à população que a arrecadação havia sido suficiente para levantar as pilastras e concluir o telhado da Casa de Farinha Comunitária. A estrutura deverá ser inaugurada durante a II Festa da Farinha da Boa Esperança, marcada para o dia 20 de novembro, em alusão ao Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

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