Tocantins - 03/12/2020 - 22:19

O Jalapão pede socorro

Postado em 09/04/2019

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O que adianta a região do Jalapão ser linda, conhecida por abrigar as mais belas dunas e as lagoas de águas cristalinas, cachoeiras, além dos famosos fervedouros, se por trás de todo esse tesouro existe um cenário de calamidade? O povo jalapoeiro aguarda uma solução por parte do poder público.

O que adianta a região do Jalapão ser linda, conhecida por abrigar as mais belas dunas e as lagoas de águas cristalinas, cachoeiras, além dos famosos fervedouros, se por trás de todo esse tesouro existe um cenário de calamidade? O povo jalapoeiro aguarda uma solução por parte do poder público.

Os moradores da região do Jalapão já não aguentam mais tanto descaso com as TO’s que dão acesso as cidades de Mateiros, São Félix, Lizarda e Rio sono. Com muito esforço, as prefeituras realizam serviços como podem, na tentativa de minimizar o sofrimento daqueles que precisam se deslocar até outras cidades. No entanto, a tentativa de recuperar trechos intransitáveis, tem sido muitas vezes em vão. Isso impossibilita o trânsito de veículos, dentre eles, ambulâncias e viaturas de órgãos de segurança.

O Jalapão pede socorro


O dono da empresa TransMateiros, que faz a linha entre Mateiros e Palmas, Armando Amaral, conhecido como “Bioca”, segura firme a van que patina e desliza em uma serra situada na região das Malhadas. Enquanto isso os passageiros gritam e pedem ajuda a Deus. Com gotas de suor no rosto, Armando, ainda visivelmente assustado, olha para trás e tenta acalmar os passageiros: “como diz a música de Mastruz com Leite: eu vou é de banda, é banda, é de banda… conseguimos passar meu povo”, tenta descontrair, mas sorri sem graça o motorista.


Esse registro foi apenas um dos quais vive rotineiramente o morador e visitantes da região. Momentos antes, a mesma van, ficou parada por cerca de 45 minutos na subida do Córrego Brejão, que fica a 30 km da cidade de São Félix. Tempo suficiente para os próprios passageiros adentrarem ao mato e ajudar Armando a cortar galhos de árvores, na tentativa de conseguir subir o trecho da serra. “A gente não trouxe moto-serra, só facão. Fica difícil cortar tanto pau para tampar os buracos. Nossos kits de socorros precisam de novas ferramentas”, explicou o motorista, que a essa altura já adentrava no mato em busca de ajuda.


Ainda sujo de lama, o motorista não perde o humor e conta: “A ladainha é a de sempre, todo ano: faltam recursos para a recuperação da estrada. Mas em período eleitoral, ainda tem político que promete asfaltar o Jalapão”, critica.


A viagem


Na viagem do dia 10 de março, a equipe do Folha do Jalapão integrou os passageiros da empresa TransMateiros. Saímos às 4 da manhã da famosa cidade de Mateiros, capital do Jalapão. Entre Mateiros e São Félix são 70 km, mas apenas às 8 da manhã chegamos ao nosso primeiro destino. Em São Félix, a van acomodou seus últimos passageiros e teve sua segunda parada no Córrego Brejão. Após tentativas frustrantes, tivemos a alegria de contar com a chegada de um trator traçado, que o prefeito de São Félix, Marlen Ribeiro mandou para nos socorrer.
“Calada em meu canto, por muito tempo fiquei pensando: Onde já se viu alguém gostar de estrada esburacada, atoleiro de areia, sol nos olhos, calor de rachar e poeira na cara? Onde já se viu ser tão famoso e conhecido mundialmente e abandonado ao mesmo tempo?”, contou depois a diretora do Folha, Wenina Miranda.


“Até hoje uma pergunta continua atolada em minha garganta: onde já se viu, virar as costas para esse povo humilde, essa gente que traz estampada no rosto a marca do sofrimento e ao mesmo tempo sorri, como se fossem obrigados a aceitar essa precariedade? Não dá para entender, porque o Jalapão é o maior ponto turístico do Tocantins mas é esquecido”, desabafou a comunicadora.


O Jalapão recebeu milhares de visitantes durante o período de Carnaval desse ano. Mas vale ressaltar que os turistas chegaram à região através de agências que disponibilizam carros traçados. Entretanto, poucos dos moradores do Jalapão têm pelo menos uma moto para se locomover.

Malhadas

Como nossa reportagem constatou, no trecho das Malhadas a situação é caótica, e os poucos mais de 10km contam com barro liso, devido a chuva. Até mesmo os carros traçados têm dificuldade para passar. Bem perto dali, na rodovia que liga Lizarda a Novo Acordo, a situação se repete.

Diariamente os motoristas atolam e muitos precisam ser rebocados.
“Nosso povo sofre a cada dia. Os prefeitos dizem não ter recursos suficientes. Que tentam, mas nas estradas precisam é de cascalhamento. A última vez que recebeu cascalho foi no Governo de Moisés Avelino. Aqui a gente passa porque conhece bem o carro e sabe que pode contar com os próprios passageiros para ajudar. Eles até ajudam empurrar a van”, conta o motorista Armando Amaral.


Armando que trabalha na van desde o ano de 2001 diz ainda que esse ano, a calamidade nas estradas está maior. “Cada ano está pior. Nós já fizemos de tudo. Protestos, abaixo assinado e manifestações. Agora estamos pensando em criar uma associação dos empresários do Jalapão, para ver se conseguimos visibilidade. Sabemos que o Estado tem recursos, mas não tem olhos, não tem coração”, lamenta.

Isolamento


O abandono nas estradas do Jalapão também prejudica empresários, fazendeiros e comerciantes que enfrentam diariamente as estradas. São diversos trechos onde o pouco cascalho que praticamente acabou se transforma em grandes obstáculos. Todos são reféns do isolamento. “A recuperação das estradas é obrigação do Estado, mas, o problema maior é que depende de boa vontade do governo para ser resolvido. É uma situação complicada, pois se não tomarmos cuidado, o risco de acidente é grande”, diz indignado o empresário Camilo Vicente.


A cada ano a realidade continua praticamente a mesma, ou pior, para os moradores do Jalapão. Buracos, atoleiros e trechos intransitáveis por todo percurso. “Queremos somente o que nos é de direito. Sabemos que o Estado possui muitas estradas em situação precária, mas isso deve ser visto como prioridade pelo governo, pois sem estrada não conseguimos locomover. Estamos ficando isolados. Estamos esquecidos no tempo, morando no quintal da capital”, enfatiza o comerciante Gercimar Xavier.


E quem pensa que o problema das estradas do Jalapão, se resolve com o fim do período chuvoso, se engana. Quando o tempo fica seco, a areia acumula e nada consegue passar sem ajuda. A quantidade de terra é tanta que os veículos ficam atolados também.


Resposta do Governo


Em nota o governo do Estado do Tocantins disse que está preparando a manutenção das rodovias. Apesar das estradas que ligam os municípios do Jalapão não serem asfaltadas, a Agência Tocantinense de Transportes e Obras (Ageto) informou que licitou “a compra de material e insumos asfálticos para a manutenção de várias rodovias, dentre elas a TO-030 e a TO-255”.


Veja a nota na íntegra:

O Governo do Estado, por meio da Agência Tocantinense de Transportes e Obras (Ageto), informa que:
· Já foi licitada a compra de material e insumos asfálticos para a manutenção de várias rodovias, dentre elas a TO-030 e a TO-255 e o processo está em fase de análise das propostas apresentadas pelas empresas.
· Paralelamente, a Ageto aguarda a aprovação do Orçamento 2019, que se encontra no Poder Legislativo, por isso não tem como precisar uma data para início dos serviços.
· A expectativa é que assim que for terminado os trâmites do processo licitatório do material, bem como da aprovação do Orçamento 2019, as condições climáticas também permitam o início dos serviços de manutenção.

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