JALAPÃO: XVIII Festa da Colheita reúne gerações em celebração ao capim dourado de Mumbuca

por Jornal Folha do Jalapao — 14/09/2026 às 12:58 — em Cidades, Destaques

A 18ª Festa da Colheita reafirmou a importância do capim dourado para a cultura, a identidade e o sustento de famílias do Quilombo Mumbuca, em Mateiros

Entre as veredas e as paisagens que ajudam a definir a identidade do Jalapão, o capim dourado voltou a reunir gerações, histórias e visitantes em torno de uma tradição que atravessa o tempo. Na manhã deste domingo, 13 de setembro, o campo se transformou em cenário de uma das principais expressões culturais do Quilombo Mumbuca: a demonstração da colheita do capim dourado, momento que encerrou a programação da XVIII Festa da Colheita.

Ao som de cantigas que fazem parte da memória da comunidade, como “Meu capim, meu capim dourado que nasceu no campo sem ser semeado”, artesãs, moradores, autoridades e outros integrantes de Mumbuca percorreram as veredas, apresentando aos visitantes o modo tradicional de colher as hastes que dão origem a uma das mais conhecidas expressões do artesanato jalapoeiro. O momento reuniu turistas, autoridades e profissionais de imprensa em uma experiência que vai além da celebração: revela a relação de uma comunidade com o território e com uma atividade que representa sustento e identidade.

Realizada de 11 a 13 de setembro, no Povoado Mumbuca, a cerca de 36 quilômetros da sede de Mateiros, a Festa da Colheita é um dos principais momentos do calendário cultural da comunidade. A programação celebra o capim dourado, conhecido como o “ouro do Jalapão”, e destaca o trabalho das famílias que encontram no manejo da planta e no artesanato uma importante fonte de renda, além de manterem vivos saberes transmitidos entre gerações.

A ida ao campo foi um dos momentos mais aguardados da programação. Mais do que mostrar onde o capim nasce e como é feita a colheita, a atividade permitiu acompanhar de perto os cuidados e conhecimentos que envolvem o manejo tradicional, além de aproximar visitantes de uma prática que permanece viva entre as famílias de Mumbuca.

Para quem acompanha essa tradição desde a infância, a colheita carrega um significado que não se resume ao trabalho. Dona Noêmi Ribeiro da Silva, conhecida na comunidade como Doutora, colhe capim dourado desde os nove anos de idade. Mesmo depois de tantos anos, ela diz que a emoção de retornar às veredas permanece renovada.

Cada colheita é uma unção diferente. O que a gente sente aqui é amor, uma coisa que nunca morre. Podem se passar gerações aqui em Mumbuca, mas todas irão aprender a ter o seu sustento no capim dourado, pois eu tenho certeza de que Deus escolheu este lugar para plantar o capim e ser abençoado para todo o sempre”, afirma.

Doutora é uma das artesãs que mantêm viva essa relação com o campo e com a tradição. Para ela, o capim dourado representa mais do que matéria-prima para o artesanato: está ligado à própria história e à permanência da comunidade.

O capim é a nossa vida, é o que temos de melhor, o nosso sustento e o que nos mantém de pé, na luta”, resume a artesã, integrante da terceira geração de sua família em Mumbuca e filha de dona Miúda, uma das mulheres responsáveis pela transmissão da arte de tecer na comunidade.

Ao lado do grupo de artesãs, Sirlene Matos também compartilhou com visitantes e profissionais de imprensa o significado do capim dourado para Mumbuca. Integrante da quarta geração de sua família na comunidade, ela representa a continuidade de um saber que atravessa gerações e permanece ligado à sobrevivência e à identidade do povoado. Neta de dona Miúda, uma das primeiras mulheres de Mumbuca a aprender a arte de tecer, Sirlene carrega na própria história a tradição que transforma as hastes douradas colhidas nas veredas em peças que levam consigo parte da memória da comunidade.

A demonstração da colheita também foi marcada pela música de viola, que acompanhou o percurso pelas veredas e ajudou a criar a atmosfera de celebração da tradição. Entre os destaques esteve a jovem Gabriela Tavares da Silva, 15 anos, que chamou a atenção ao participar da atividade usando um vestido confeccionado em capim dourado, unindo a beleza do artesanato à identidade cultural de Mumbuca.

Proteção das veredas

A história da relação de Mumbuca com o capim dourado também passa pela pesquisa científica e pela construção de mecanismos de proteção e manejo da espécie. A pesquisadora Isabel Schmidt, que acompanhou esse processo desde o início dos anos 2000, explica que os primeiros estudos foram motivados por uma preocupação manifestada pela própria comunidade diante do aumento do número de pessoas que passaram a colher o capim nas veredas.

Viemos, em 2001, estudar os impactos do extrativismo, a partir de uma demanda que surgiu da preocupação da própria comunidade, que percebeu que havia muito mais gente colhendo capim. Então, o Ibama veio a partir dessa preocupação para levantar esses números. Daí surgiu a Lei Estadual do Capim Dourado, que é a primeira lei do Brasil que fala em manejo integrado ao fogo”, relata Isabel Schmidt, pesquisadora do Ibama.

O prefeito de Mateiros, Jesy Vieira, fez questão de acompanhar de perto a programação da Festa da Colheita e reforçou o compromisso do município com a valorização da tradição e com as famílias que têm no capim dourado uma importante fonte de sustento. Durante a atividade nas veredas, ele destacou a importância do capim para a história de Mumbuca e desejou que a tradição continue sendo fortalecida ao longo das gerações.

O capim dourado é um marco da história do Jalapão. Fico muito feliz em estar aqui, vendo a comunidade satisfeita. Sabemos que essa é uma das principais fontes de renda de Mumbuca, um sustento que vem da tradição que dona Miúda ensinou a tecer e que hoje atravessa gerações. Que Deus abençoe nossas veredas, que nunca deixe faltar esse sustento para as famílias e que, a cada ano, essa tradição possa crescer e se fortalecer ainda mais. Se Deus quiser”, afirmou.

A primeira-dama de Mateiros, Ana Claudia, destacou o empenho da comunidade na realização da Festa da Colheita e a importância de preservar a tradição.

Quero agradecer pela recepção e parabenizar todos pelo trabalho. Embora tenhamos o apoio do Governo do Estado e da Prefeitura, o sucesso desta festa é resultado, principalmente, da dedicação de vocês. Como disse o prefeito, o capim dourado é um marco para o desenvolvimento econômico de Mateiros, mas a riqueza do Jalapão vai muito além dele, está nas comunidades, na cultura e na história. Vocês estão preservando um legado que não pode ser esquecido. Contem sempre com o nosso apoio e parceria”, reforçou a primeira-dama.

Em sua reflexão durante a atividade, o pastor Teomenilton Almeida recorreu à parábola bíblica das três sementes para falar sobre o cuidado com as veredas e a preservação do capim dourado. A partir da passagem, fez uma relação com o ciclo da planta e ressaltou que, assim como uma semente precisa de condições para germinar e produzir frutos, as veredas também dependem de cuidado e preservação para continuar garantindo o sustento das famílias de Mumbuca.

Novas Gerações

O povoado segue na preservação da espécie em sua quinta geração, tendo como referência o legado iniciado com dona Laurinha Pereira Bento, matriarca do povoado. A preocupação das novas gerações está voltada à preservação, já que, a cada ano, segundo a comunidade, o capim tem diminuído em volume e quantidade. Ainda assim, desde cedo, as crianças aprendem sobre a importância de preservar a espécie e também acompanham as colheitas.

Os antepassados de Mumbuca também são lembrados por meio das conversas e histórias repassadas entre as gerações. A demonstração da colheita refaz os passos de uma arte que atravessa o tempo há mais de 150 anos e que continua diretamente ligada à vida econômica e cultural da comunidade.

A continuidade dessa história, no entanto, passa pelo equilíbrio entre a colheita, o manejo e a preservação das veredas. É nesse cenário que as novas gerações de Mumbuca aprendem, desde cedo, que manter o capim dourado em seus campos significa também garantir a permanência de um saber, de uma atividade econômica e de uma parte da história do Jalapão.

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