TO tem seis hemocentros para 139 cidades e baixo número de doações de sangue pode comprometer cirurgias

por Wenina — 21/07/2022 às 10:47 — em Estado

Ministério Público do Tocantins monitora estoques para que não falte material. Apenas uma doação pode ajudar a salvar até quatro pessoas; conheça campanhas mobilizam doadores e ajudam a recuperar estoques no estado.

A doação de sangue é um ato voluntário que salva vidas, mas nos últimos anos a baixa adesão tem colocado em risco pessoas que precisam passar por procedimentos delicados e complexos. Durante a pandemia a situação piorou e no Tocantins cirurgias chegaram a ser adiadas por falta de bolsas de sangue. Segundo o Ministério da Saúde, somente 1,4% da população brasileira – ou 14 a cada mil habitantes – doam sangue no Sistema Único de Saúde (SUS) atualmente.

Conforme o Governo do Tocantins, “os estoques estão em níveis baixos” e “a situação é grave”. O estado possui apenas seis hemocentros para atender 139 cidades e a situação das bolsas de sangue para realização de cirurgias é monitorada pelo Ministério Público do Tocantins (MPTO).

O ato solidário é a única opção para o abastecimento de sangue nos hospitais públicos e particulares em todo o Brasil. Nesta matéria especial, entenda como é o processo da doação de sangue, o uso em centros cirúrgicos e o tabalho da equipe médica, e conheça pessoas e projetos que têm compromisso de atuar na promoção da saúde da sociedade e manter as unidades de saúde sempre com estoque.

Cada bolsa de sangue doada por uma pessoa tem 450 ml. O material coletado em poucos minutos é suficiente para salvar a vida de até quatro pessoas que se submetem a tratamentos e intervenções médicas de grande complexidade, como transfusões, transplantes, procedimentos oncológicos e cirurgias.

O problema é que as doações, que diminuíram desde o início da pandemia, podem cair ainda mais no meses de julho e dezembro, quando grande parte dos doadores regulares deixam de comparecer aos hemocentros por causa do período de férias e festas. Ao mesmo tempo a necessidade de sangue aumenta devido ao grande número de acidentes de trânsito em viagens. O medo dos profissionais de saúde é de que sangue de quem comparece não seja suficiente para a alta demanda.

A dificuldade é ainda maior porque dos 139 municípios do Tocantins, apenas cinco contam com hemocentros: Palmas, Araguaína, Gurupi, Porto Nacional e Augustinópolis. Todo o sangue captado é distribuído para 17 unidades hospitalares públicas e 36 hospitais privados. A dificuldade no acesso faz com que possíveis doadores não procurem as unidades e os números de doações acabam sendo menores.

A Secretaria Estadual de Saúde disse que os seis hemocentros do estado ficam “localizadas em regiões estratégicas, para atender a população e as demandas transfusionais de norte a sul do Estado”. 

Desesperados e sem ter o que fazer, muitos pacientes que precisam passar por procedimentos cirúrgicos precisam compartilhar nas redes sociais apelos para conseguir sangue compatível. As mensagens ficaram ainda mais comuns durante a pandemia. Foi o que fizeram parentes e amigos da jovem Talyta Dias Barbosa. Em dezembro de 2021, por falta do sangue O negativo, eles precisaram mobilizar dezenas de pessoas para que ela pudesse realizar uma cirurgia de emergência.

Para manter os hemocentros e hospitais abastecidos, o Ministério Público do Tocantins (MPTO) monitora as ações e os estoques de sangue em todo o estado. O objetivo é não deixar que falte o material. O órgão também criou a ação ‘Parceiros Pela Vida’, que mobiliza centenas de doadores. A promotora de Justiça Araína Cesárea D’alessandro, que atua na área da Saúde em Palmas, explicou que a ideia de incentivar os servidores começou no início da pandemia.

“A campanha surgiu em 2020 diante da crise de abastecimento dos hemocentros por bolsas de sangue e hemoderivados. O Ministério Público decidiu atuar positivamente também arrecadando bolsas de sangue para auxiliar o hemocentro na realização de cirurgias eletivas”, disse Araína.

Conforme o Ministério da Saúde, em 2020 foram coletadas 2.958.665 bolsas de sangue no Sistema Único de Saúde (SUS). Já em 2021 foram feitas 3.035.533 coletas. Até abril de 2022 havia registro de 984 mil doações.

O Governo Federal diz que as campanhas nacionais para estimular a doação voluntária foram promovidas pelo MS em 2020, 2021 e 2022.

“O consumo de sangue é diário e contínuo, pois as anemias crônicas, cirurgias de urgência, acidentes que causam hemorragias, complicações da dengue, febre amarela, tratamento de câncer e outras doenças graves, continuam ocorrendo e não há um substituto para o sangue, sendo sua disponibilidade essencial em diversas situações”, explicou o Ministério da Saúde.

Processo gratificante

O pastor e técnico de enfermagem Aristóteles Pereira Marin, de 53 anos, participa do processo dos dois lados e entende bem sobre a importância de doar sangue. Além de trabalhar em um hemocentro de Palmas, ele também organiza campanhas e é doador. Ele é um dos profissionais de saúde que atende e acompanha os doadores. Quando está de folga faz questão de ser um voluntário.

O técnico conta que se tornou doador de sangue há 7 anos quando começou a trabalhar no hemocentro. “Comecei a ver a necessidade e a importância de ser um doador”. Ele também incentivou toda a família a ser doadora. “Toda minha família agora é doadora. Minha esposa, minha filha, meu filho, o genro e a nora e até o sogro do filho”, disse.

Ele conta que muitas pessoas que têm medo de doar precisam de um atendimento especial. “Faço com muito carinho e amor. Tem que estar preparado para acolher o doador e deixá-lo seguro para o procedimento. Assim explicamos o processo da doação e tentamos deixá-lo o mais confortável possível”, disse.

Como profissional, Aristóteles se sente realizado. “Tenho minha profissão como um chamado de Deus. Algo que veio para me deixar realizado”.

Gesto de amor

Nicolau Ferreira de Souza Filho tem 35 anos e doa sangue regularmente. No hemocentro de Palmas há 32 registros de doações. Fazendo uma conta simples, é possível que com os 14 litros e 400 ml de sangue o eletricista pode ter salvado a vida de 128 pessoas.

O homem que começou a doar por influência de um amigo atualmente tem o ato como compromisso e ainda incentiva colegas.

“Nós estávamos servindo no quartel e ele me chamou porque tinha uma pessoa precisando para fazer cirurgia. Foi quando fiz a primeira doação. Hoje eu faço isso com muito prazer e também incentivo meus colegas. Já levei de 8 a 10 pessoas para doar. Meus colegas da igreja eles sempre vão comigo. É um gesto muito importante a se fazer”, disse Nicolau.

O eletricista conta que o pai dele precisou passar por uma transfusão depois de ser diagnosticado com câncer. Ele diz que é gratificante doar um pouco de si para ajudar pessoas que não conhece.

Como forma de incentivo à doação de sangue, todos os anos os doadores têm direito a um dia de folga no trabalho no dia da doação. O documento que comprova o ato é entregue por um profissional de saúde no hemocentro.

Parceiros Pela Vida

A ‘Campanha Parceiros Pela Vida’ é realizada pelo Ministério Público do Tocantins. A iniciativa surgiu no início da pandemia, época em que o órgão começou a cobrar que o Governo do Estado retomasse as cirurgias eletivas que foram suspensas. Em três anos foram feitas 16 edições, sendo que 15 mutirões aconteceram em Palmas e um em Araguaína. Em cada mutirão são captadas mais de 50 bolsas de sangue.

A idealizadora do projeto, a promotora de Justiça Araína Cesárea D’Alessandro, explica que outros órgãos se tornaram parceiros e que os servidores se juntam para aumentar as doações.

“A ideia foi convidar a unidade móvel de captação da Secretaria Estadual de Saúde, que é um ônibus, e esse ônibus recebe apoio do espaço físico da unidade de saúde do Ministério Público. O MPTO convidou órgaos parceiros vizinhos para que os servidores contribuíssem doando sangue, fazendo cadastro de medula óssea, fidelizando-se, e nas outras edições retornando”, explicou.

A ação agora conta com parceria da Justiça Federal, Tribunal de Contas do Estado (TCE/TO), Ministério do Trabalho (MPT), Ministério Público Federal (MPF), Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Receita Federal, Sebrae, OAB Tocantins, Hemorrede e Correios, além da Associação Tocantinense do Ministério Público (ATMP) e Associação dos Servidores Administrativos do Ministério Público (Asamp), entidades classistas do MPTO.

Além disso, o MPTO afirma que segue monitorando os estoques nas unidades de saúde. “Agora com o cumprimento de decisões judiciais pela Secretaria de Estado da Saúde, que elaborou os planos de ação para zerar filas das cirurgias ortopedias e cardíacas, temos aumentado a cobrança de manter os bancos de sangue”, explicou a promota Araína.

‘Medidas que garantem a vida’

O médico Fellipe Camargo F. Dias, que trabalha com atendimento de urgência e emergência no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e no pronto socorro de um hospital particular de Palmas, explica que o sangue é insubstituível e sem ele muitos pacientes que sofreram traumas graves poderiam morrer em poucos minutos.

Durante os plantões o profissional atende moradores que perdem muito sangue em diversas situações, incluindo acidentes de trânsito e tentativas de homicídio. “Uma das principais causas de morte de um paciente grave politraumatizado é o choque, principalmente o choque hemorrágico, que é quando a pessoa perde muito sangue e isso faz com que ela tenha a pressão muito baixa e leva a uma sequência de fatos que vai levar o paciente a óbito”, disse o médico.

Ele explica que todas as unidades de saúde devem estar preparadas para atender pacientes com a quantidade de bolsas de sangue que forem necessárias.

A demanda de sangue vai além da que estava prevista para ser usada em pacientes internados, que já recebiam acompanhamento médico e tinham procedimentos marcados.

“A doação de sangue é muito importante para manter o estoque do hemocentro com quantidade suficiente para atender a população. Nesta época de férias a gente tem uma grande quantidade de acidentes principalmente nas estradas e acidentes em estradas geralmente são acidentes com alta energia, com veículos em alta velocidade gerando lesões graves muitas vezes com múltiplas vítimas e aumenta a necessidade de sangue para esse tipo de atendimento”, explicou Fellipe Camargo.

O médico diz que o mesmo paciente pode precisar de transfusões várias vezes. “Pode ser que ele precise de sangue tanto na chegada no atendimento no hospital, tanto no processo de cirurgia e até mesmo após a cirurgia. E ter esse estoque de sangue garantido pelo hemocentro é muito importante”, afirmou o profissional.

Ações emergênciais

Com o baixo número de doadores, além das famílias de pacientes, a Secretaria Estadual de Saúde faz ações emergenciais. Quando necessário, hemocentros ficam abertos nos fins de semana e feriados. Também são feitas campanhas externas com a unidade de coleta móvel em locais movimentados, como em feiras, quarteis de polícia.

O governo também adere à campanha nacional ‘Junho Vermelho’. Conforme o Estado “este ano as unidades de coleta apresentaram um aumento de 29% na quantidade de doadores durante a campanha, sendo 2.179 doadores de sangue este ano, 1.682 em 2020 e 1.889 em 2019.”

As campanhas dão resultado momentâneo, mas o sistema precisa de doações diárias. Nesta sexta-feira (15), por causa da queda no número de doações, profissionais de saúde da Hemorrede fizeram uma blitz educativa em Palmas para conquistar novos doadores de sangue. Vestidos com camisetas com frases que incentivam a doação de sangue, os servidores realizaram uma panfletagem na Avenida Tocantins, ponto comercial da capital.

Robéria diz que os estoques estão muito baixos e que as ações servem para alertar as pessoas sobre a necessidade de voltar ao hemocentro.

“A gente está pedindo o tempo todo que as pessoas antes de irem para as festas, de saírem, antes de ingerir bebida alcóolica, que compareça em uma de nossas unidades. É importante lembrar que o número de doadores também têm dimunuído porque muitos doadores estão com sintomas gripais, atém mesmo com Covid ou sequelas da Covid. Alguns não podem mais doar. Por isso é importante a gente precisa renovar o nosso número de doadores”, explicou.

O Ministério da Saúde afirma que acompanha diariamente o quantitativo de bolsas de sangue em estoque nos maiores hemocentros estaduais.

O MS afirma que, nesses casos, o hemocentro que fornece as bolsas de sangue não necessariamente é o mais próximo, mas o que no momento tiver uma maior quantidade em estoque e possa disponibilizar sem riscos.

Critérios para doação de sangue

Para ser um doador de sangue simples. É necessário estar em boas condições de saúde, ter entre 16 e 69 anos e pesar no mínimo 50 kg.

O doador não pode ingerir bebida alcoólica nas 12 horas que antecedem a doação e precisa ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas. É importante estar bem alimentado e evitar comidas gordurosas no período de 3 horas antes da doaçã.

No hemocentro é necessário apresentar documento original com foto recente que permita a identificação do candidato. Na unidade o doador passa por uma rápida triagem e responde algumas perguntas. Depois ele vai para a sala de captação, onde o sangue é coletado.

Todos os hemocentros seguem medidas preventivas para evitar a transmissão do coronavírus, como uso de máscara e distanciamento social. Quem preferir pode agendar o horário de atendimento. Os contatos da hemorrede no Tocantins são os seguintes:

O que diz o Governo do Estado

A Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO) informa que atualmente, o ordenamento jurídico e a regulamentação do Sistema Nacional de Sangue e Hemoderivados estão baseados em diversas leis e resoluções. Destaca-se aqui, para a doação de sangue, a Constituição Federal de 1988, Art. 199, Parágrafo 4º, a Lei 10.205/2001 e a Portaria 2.712/2013, ambas as leis destacam que a doação de sangue deve ser voluntária, anônima e altruísta, não devendo o doador, de forma direta ou indireta, receber qualquer remuneração ou benefício em virtude da sua realização.

A Secretaria de Estado da Saúde destaca que a problemática ‘doação de sangue’ não é exclusiva da Hemorrede do Tocantins, o número baixo nos estoques é a nível nacional, diretamente ligada à cultura e a responsabilidade social do cidadão, que é agravado durante o período de férias e feriados prolongados. Ainda vale destacar que apesar do número de doações terem crescido nos últimos anos, ela não acompanhou a demanda, pois hoje a Hemorrede do Tocantins é a única responsável para atender a demanda transfusional de 17 unidades hospitalares públicas, mais 36 hospitais privados.

A Secretaria de Estado da Saúde informa ainda que a Pasta tem trabalhado diversas campanhas de incentivo à doação de sangue, por meio da Hemorrede do Tocantins, bem como disponibilizado vários serviços que facilitem o acesso do doador de sangue até uma das unidades, a exemplo da disponibilização de veículo para buscar os doadores e as coletas externas com a Unidade Móvel.

A SES-TO enfatiza que possui seis unidades do hemocentros, localizadas em regiões estratégicas, para atender a população e as demandas transfusionais de norte a sul do Estado.

Palmas, 15 de julho de 2022
Secretaria de Estado da Saúde
Governo do Tocantins

(G1-TO)

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