TRADIÇÃO E LEGADO: Colheita do capim-dourado reflete o brilho do Ouro do Jalapão

por Wenina — 18/09/2023 às 12:43 — em Cidades, Destaques

Ao fazer a colheita demonstrativa no campo de vereda, as artesãs do Quilombo Mumbuca revivem a história da Comunidade e a herança de amor e cuidado deixada por dona Miúda. O momento é repleto de lembranças e celebração ao artesanato que se difundiu pelo mundo inteiro

O olhar sincero e grato de quem vê ao longe a vereda de capim-dourado tomada pelas hastes que são sinônimos de uma tradição secular, garantia do pão de cada dia na mesa e herança ancestral de gerações.  O brilho da vegetação do campo em meio ao cerrado ainda intocado resplandece nos olhares das artesãs quilombolas que revivem na vereda uma memória ainda viva, deixada por Dona Miúda e perpassada aos seus descendentes.

O capim-dourado foi celebrado em mais uma Festa da Colheita do Povoado Mumbuca, em Mateiros, neste final de semana. A colheita demonstrativa no campo, que ocorreu neste domingo, 17, é o momento mais esperado pelos quilombolas e visitantes que encontram na vereda a essência e a real motivação da celebração.

Memórias

Líderes da Comunidade Mumbuca e filhas de dona Miúda, dona Antônia Ribeiro (Tonha) e Noemi Ribeiro (Dotora) herdam um legado de amor e fazem questão de manter viva a chama de seus ancestrais. Ao relembrar as vivências com a mãe, Dotora se enche de emoção e orgulho em fazer parte de uma história que, para ela, nunca vai acabar.

“Eu passei por esse caminho tantas vezes que nem sei a conta. Às vezes tinha um animal para a gente levar o capim, mas quando não tinha era na cabeça, juntava o molho de capim, amarrava, colocava no balaio e ia caminhando. Isso que a gente vive hoje nem se compara ao que passamos, foi um tempo de sofrimento, mas de muita saudade, que mamãe nos trazia para colher, fazia o beiju, a mandioca assada, e a gente vinha pra colher o capim”, comenta a líder.

O legado de amor pelo capim e a cultura local são fomentados por Dotora de forma simples e cheia de carisma, com uma riqueza de detalhes e valor incalculável. “É uma responsabilidade linda, e nós só temos que fortalecer isso cada dia mais e não deixar perder nossa cultura, a gente não consegue falar como somos recompensados por isso. Através da arte da minha mãe a gente conheceu tantas coisas, palavras, pessoas, isso é a nossa união, tudo através dessa linda arte. Cabe a nós cada dia mais fortalecer, cuidar do campo para não acabar”, ressalta Dotora.

Para dona Tonha os antepassados que já deixaram a comunidade são memórias vivas. “Temos saudade da minha mãe que deixou essa história, essa riqueza para o Tocantins e para a Mumbuca, e a falta do nosso sobrinho Maurício da Viola, e outras pessoas que partiram. Nós estamos aqui representando essa história, e o capim-dourado para nós é a coisa mais linda do mundo. Aqui não tínhamos nada, e com Deus em primeiro lugar e depois o capim-dourado nós conhecemos tantas coisas. Essa mulher aqui, a Dotora, ficou no lugar da nossa mãe e mantém esse legado”, se emociona a artesã.

Colheita

A colheita do capim-dourado ocorre oficialmente entre os dias 20 e 30 de setembro. Durante a festa em celebração à arte presente no Mumbuca, as artesãs se reúnem para cantar e demonstrar o amor à haste que proporciona riquezas culturais à comunidade. A demonstração é sempre iniciada com uma oração de gratidão a Deus que envolve todos os presentes.

Na vereda, também é protagonista da colheita a violinha de buriti, instrumento perpetuado pela memória de Maurício Ribeiro (in memoriam). As músicas são entoadas com amor e alegria pelos artistas Arnon Ribeiro, além de Missim da Viola de Buriti.

O símbolo do Jalapão também é celebrado pelo prefeito de Mateiros, Pastor João Martins, que ao fazer parte do momento, comemora uma das manifestações culturais mais bonitas da região.

“Com a graça de Deus tenho a oportunidade de acompanhar esse momento tão especial, e aqui é onde está o capim-dourado e isso nos emociona muito, pois é o pão de cada dia que vai para a mesa das crianças e é um artesanato presente no mundo inteiro. Tudo começou pela dona Miúda e hoje vemos em qualquer lugar. É um momento de agradecer a Deus e enquanto eu tiver vida quero estar aqui presente junto com a comunidade. Isso aqui é história e não temos palavras para definir”, ressaltou o gestor.

A tradição secular da comunidade foi também celebrada pela primeira-dama Mariene Tavares, que fez questão de fazer parte do momento. “Como é maravilhoso estar aqui, a gente só tem que agradecer ao Senhor e para mim, na Festa da Colheita os momentos mais importantes são o culto em ação de graças e a colheita. Quando venho na vereda que vejo essa quantidade de capim que estamos vendo hoje eu me emociono, pois sei que é daqui que sai o sustento de muitas famílias, e para nós da gestão não tem nada mais gratificante do que saber que nosso povo está sendo abençoado”, comemorou.

As lembranças dos pioneiros da arte do capim também foram resgatadas pela primeira-dama. “É um momento de muita emoção lembrar das pessoas que já passaram, como dona Miúda, Laurintina, a minha mãe Creuza que era uma artesã, o pastor Miratan, que tanto orou por esse povo, e assim lembrar das raízes. Eu sou muito grata a Deus por ver as pessoas dando continuidade, passando a sabedoria para as gerações”, recordou Mariene.

Representatividade

A mumbucana Ana Cláudia Matos é diretora de proteção aos quilombolas da Secretaria dos Povos Originários e Tradicionais (Sepot). Além de vivenciar e reviver momentos vividos desde a infância, Ana Mumbuca reflete sobre a representatividade que hoje dá voz à comunidade. Ao longo da colheita ela declamou poemas da história do Quilombo e se emocionou ao relembrar os antepassados.

“Eu revivo memórias de pessoas que foram e são ainda fundamentais, apesar a de terem ido embora, deixaram para nós a condição de continuar vivendo com dignidade, foi isso que o capim-dourado nos proporcionou, sermos vistos como gente. O brilho do capim expandiu para o mundo e essas mulheres conseguiram isso e olhar a imensidão das veredas como dona Laurina fez, é como se eu tivesse estado com ela também nessa cena, porque o povo dela continua vivo. Nós coroamos a vó Miúda como nossa rainha, que foi embora, mas permanece o seu legado. A vó Laurintina era uma pessoa que tinha o cuidado com a vida, uma acolhedora e ao lembrar dela, do Maurício violeiro temos o cuidado de não deixar isso acabar”, ressaltou a quilombola.

A secretária estadual dos povos originários e tradicionais, Narubia Werreria, também presenciou o momento pela primeira vez e falou do sentimento de protagonismo importante para a comunidade. “Esse é um encontro ancestral, as pessoas não contam a história real do Brasil que vem dos povos indígenas e quilombolas, e em todos os quilombos que vou eu encontro traços da cultura indígena também, o trançado, o beiju, a rede, o compartilhamento, eu me sinto em casa e é o próprio capim-dourado é a comprovação dessa união”, disse.

A colheita demonstrativa também foi acompanhada pela secretária Executiva da Sepot, Cristiane Freitas, e pelo assessor do Ministério da Igualdade Racial, Victor Cruzeiro.

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